lugar de encontro de emoções: vividas, sentidas ou simplesmente imaginadas
13.2.12
12.2.12
Com esdrúxulos sentimentos, alguém terá dito que todas as cartas de amor são ridículas. Tal como essa Pessoa, também eu escrevi cartas de amor, bilhetes de amor, poemas de amor. Só me faltou a coragem de entrar em cena com a minha sensibilidade à flor da pele para assim perpetuar a tinta da china o que, se calhar, hoje também julgaria ridículo.
Porque me perco quando vou de encontro aos livros e porque me encontro nas palavras sublinhadas, nas lembranças dos marcadores que cada um contem, deparei-me ontem com um bilhete de amor silenciosamente aconchegado n'O Inverno do Nosso Descontentamento de Steinbeck. E como tudo veio por arrasto, esse livro trouxe-me tempos em que mansamente deambulava pelos alfarrabistas da Rua da Fábrica e da Rua do Almada, onde encontrava aqueles livros que me procuravam a mim. Livros lidos e usados, escritos ou rabiscados, amados ou odiados ... enfim, livros!
E nesse reencontrei este poema (o tal marcador), folha lisa e rasgada de um bloco com argolas, cujas letras a lápis não terão sido passadas a limpo pelos olhos de quem as deveria ter lido.
E fielmente diz assim:
Corre mansamente
O ribeiro pela encosta
Levando consigo e envolvendo
O sabor da tua boca.
Deixaste-me em silêncio
Deparando o meu amor
Partindo e chorando
E acalentando esta dor.
Pela encosta abaixo
Corre o ribeiro, meu amor.
A saudade bate forte
choro a tua ausência
olho as águas lentamente
do ribeiro, meu amor.
Passa o tempo, corre a vida
A tortura desvanece
À espera que chegue o dia
desse amor que me enlouquece.
Lentamente pela encosta
corre o ribeiro meu amor.
22.1.12
"Adoro o luxo. E o luxo não reside na riqueza e na ornamentação, mas na falta de vulgaridade"
Coco Chanel
Não é meu hábito julgar os outros, mas por mais voltas que desse, não consegui encontrar palavras para compreender o significado desta expressão.
Como pessoal vulgar que sou, e pelo que percebo, a falta de vulgaridade a que esta senhora se refere, assim como os artigos à sua marca associados, são no meu entender, "coisas" perfeitamente dispensáveis e curiosamente, para pessoas de elevada riqueza, que mais não servem a não ser satisfazer a ostentação.
Se uma mala de senhora da Hermès custa 100.000 euros ou se uma cama para cães de Carolina Herrera custa 660 euros, eu estou-me perfeitamente borrifando para quem pode esbanjar tanto dinheiro. Gasta-lo-ão obviamente porque podem. Mas não deixará de ser luxo.
Curiosamente é em tempos de crise que os artigos de luxo costuma disparar, e as grandes marcas de moda, todas elas com assento na rica baixa lisboeta dizem não sentir a crise, dizem até com certo orgulho que 60% da clientela é portuguesa. Ah!,e agora também as "damas" de Angola que se deslocam lá prepositadamente para comprar sapatos a 950 euros ... o par.
Crises? What crises?
monge
luxo, s.m. ostentação da riqueza, magnificência, gala, fausto, sumptuosidade, pompa.
vulgar, adj. que diz respeito ao vulgo, comum, trivial, ordinário, frequente.
19.1.12
Naquele ir,
obrigação encarcerada,
estar a fugir
importava em nada.
Afastava-me sem proveito,
sem reparar nas emboscadas,
com as palavras no peito
e de costas voltadas.
Vencido pelo esquecimento
e com um cigarro aceso,
abafava esse momento,
num sorriso adormecido e preso.
Todavia, tomba-se a esperança
sacudida e enamorada,
feita linguagem de criança,
afasta-se e acena já cansada.
monge
15.1.12
poesia concreta
"Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
senso da poesia."
SONO COLOQUIAL, Mia Couto, idades, cidades,divindades
Ao fim e ao cabo, a poesia para mim acabam por ser as palavras dos outros. Encaro-a como um produto de linguagem onde se materializa a "sintese estética de todas as impressões" sentidas em mim. No entanto, a poesia tem uma virtude, a qual de uma forma reflexiva, nos permite perceber as questões da verdade e da falsidade, nas das palavras mas dos actos e das vontades dos homens.
"Pretendo que a poesia tenha a virtude de, no meio do sofrimento e desamparo, acender uma luz qualquer, uma luz que nos é dada, não desce dos céus, mas que nasce das mãos e do espírito dos homens"
Ferreira Gullar
Posto isto, se não nos preocuparmos com o que nos rodeia, jamais poderemos fazer uma análise que faça coincidir os nossos sentimentos com a realidade.
"Por caminhos só rectos não sei ir.
Nos ínvios por que vou, não sei ficar.
Suspenso do passado e do provir,
Venho e vou!, venho e vou!, não sei parar.
Abri asas nas mãos para fugir,
E raízes nos pés para amarrar.
(Levava chão nos pés indo a subir,
Trazia céu nas mãos vindo a baixar...)
Eis, porém, que estes dons ultra-humanizam,
E os homens, meus irmãos, se escandalizam
E me espontam as asas e as raizes.
Assim se castram eles próprios, pobres!,
E tendo-se, mais vis, por mais felizes,
Se satisfazem com seus magros cobres..."
LIBELO, José Régio, Cântico Negro
monge
14.1.12
20.11.11
Three little birds - Gilberto Gil
Com o devido consentimento de Bob, que lá de cima aprova estas manifestações de paz e esperança, tornadas maravilhosas pela arte.
monge
25.9.11
vamos brincar às beijocas?
Estavamos a jantar quando o Manel, cheio de entusiasmo, se lembrou de nos começar a contar:
- Hoje andei a jogar às beijocas!
Da minha meninice, jogos que metessem beijocas, só me vem à ideia o "verdade ou consequência", mas não estava ver putos com 6 anos com tanta "destreza" para o praticar.
Como a curiosidade era geral, lá lhe perguntei:
- E como se joga esse jogo, filho?
Com os olhos cheios de alegria, o Manel explicou-nos então o jogo:
- As meninas pintam os lábios com baton, nós começamos a correr e se elas nos apanharem, dão-nos beijocas.
- Onde? Na cara?
- Não. Na boca! - rematou ele com seriedade.
- E então, já te deram muitas beijocas? - pergunto-lhe eu.
- A mim não. Eu corro muito!
Bem a partir daqui foi risota geral e já não conseguimos dizer ao Manel de forma séria a falta que isso lhe vai fazer para quando for grande e quiser umas beijocas.
5.9.11
Stay in Queue
Aposto que já aconteceu isto a alguém. Frustrante!
Só porque amanhã vou às Finanças...
Só porque amanhã vou às Finanças...
monge
30.8.11
possibilidades
o fim da utopia será a morte anunciada de um sonho antigo ...
precisaremos sempre de terra para enraizarmos a alma ...
aquele que é dono de si próprio tornar-se-á verdadeiramente rico ...
a sede de viver é imensa ...
Sonhar é vital!
monge
25.8.11
The Way
Com argumento, direção, produção e participação de Emílio Estevez e com Martin Sheen como ator principal, este filme narra a história de um pai americano que viaja até França para recuperar o corpo de seu filho, que morreu durante a viajem "El Camino" de França até Santiago de Compostela. A trama do filme enrola-se num misto de ação, aventura, comédia e drama.
Quem já fez o Caminho, sabe que não se trata simplesmente de um passeio. É uma experiência que afeta de maneira diferente cada peregrino. Embora o motivo principal para se fazer o Caminho seja de ordem religiosa, há muitas outras razões para fazê-lo enquanto caminheiro, sucedendo o mesmo com os efeitos provocados. Trata-se mais de uma jornada pessoal em que intervêm fatores físicos, psicológicos, simbólicos e até telúricos.
Quem já fez o Caminho, sabe que não se trata simplesmente de um passeio. É uma experiência que afeta de maneira diferente cada peregrino. Embora o motivo principal para se fazer o Caminho seja de ordem religiosa, há muitas outras razões para fazê-lo enquanto caminheiro, sucedendo o mesmo com os efeitos provocados. Trata-se mais de uma jornada pessoal em que intervêm fatores físicos, psicológicos, simbólicos e até telúricos.
Eu fi-lo por tudo isso! Altamente recomendável, tanto o Caminho como o filme.
monge
22.5.11
The National - Fake Empire
Mais uma bela sugestão do amigo Nuno.
Com uma letra nitidamente dirigida aos tempos americanos da governação de Bush (poder-se-á ver num outro video clip). Li algures que The National terão já atingido o seu auge e maturidade. É possível que os tenhamos por cá, nalgum dos nossos festivais. Era uma ideia.
monge
21.5.11
Não vivo muito longe do centro da cidade, mas na ida e na volta ainda se gasta quase uma hora de caminho, o qual sendo feito por percursos alternativos, até se pode tornar agradável e interessante.
Porque decidi privilegiar as caminhadas, porque decidi poupar em combustível e estacionamentos, ontem desloquei-me ao centro para tratar de assuntos na seguradora e nos correios. Sabendo que os correios fechavam mais tarde, fui primeiro à seguradora. Como andava sem seguro de carro há já alguns dias, em vez de me passar nova declaração provisória, o funcinário propôs-me o pagamento da prestação do mês de Maio e assim receberia de imediato a carta verde. E não é que, a prestação acertou em cheio com o dinheiro que tinha no bolso, tendo ficado a dever ainda um centimo ao dito senhor? Ele há coisas!
Bem, sem dinheiro, já não pude ir aos correios, despachar com urgência as pilhas para o aparelho auditivo de minha mãe. Lá me pus a pé novamente a caminho de casa, sabendo que teria de lá voltar.
Na cidade onde vivo, há ruas em que os passeios permitem que passe apenas uma pessoa.
Caminhando com passo apressado e o pensamento pouco companheiro, aperecebo-me de outro transeunte vindo em direcção a mim, e inevitavelmente deparamo-nos com aquela habitual situação em que ambos hesitamos, mesmo sem nos olharmos. Eu desço o pé do passeio, ele imediatamente desce também o pé do passeio, logo eu retorno ao passeio e ele sai do passeio para me deixar passar a mim. Ao passar por mim, o senhor alto e jovem, educadamente disse:
- Peço desculpa. Tenha uma boa tarde.
Apanhado de surpresa, nunca esperei que me pedisse desculpa, muito menos que me desejasse boa tarde. No entanto fê-lo.
Isto durara pouco mais de um segundo. Aquele senhor não perdera tempo a demonstrar talvez o orgulho da sua humanização. E eu ganhara talvez um pouco mais vontade de viver, de saber que neste mundo ainda há motivos pelos quais vale a pena existir.
Ontem esteve um dia radioso!
monge
4.4.11
MOMENTOS
Reencontro com o passado. Life's good! Curta metragem gravada na Rua da Boavista, Porto.
monge
25.2.11
20.2.11
"Quando nasci, comecei logo a chorar pois não conhecia ninguém."

Duas propostas de trabalho: biografia de autores de literatura infantil e autobiografia de cada aluno.
Assim, foi com aquela magnífica e ubíqua frase que um aluno começou a sua autobiografia.
Ora, aí está uma boa razão para alguém se sentir descontente quando desagua neste mundo pela primeira vez!
Para quem, de repente, se tem que ausentar do aconchego de um útero silencioso e suave, esse refúgio bom, compartilhado por um terno cordão umbilical sem fim e rodeado de um abençoado amor, vir ao mundo poderá ser a ruptura com a solidão de estar só.
Esse terrível abandono, associado ao receio de dar de caras com uma realidade emaranhada de verbos mal conjugados e de filosofias ímpares, poderá tornar-se uma questão de absoluta emergência que há tanto tempo nos espera.
Aparecer no verdadeiro momento em que se vê a luz na boca do mundo, animados pela vontade de ir em frente, seguimos em direcção a subjectividades coloridas por um sol quente de um amarelo infinito, logo percebemos que temos lugar no futuro. Estará cumprido o nosso destino. Apesar de todas as ironias da nossa descrença no mundo, é-nos permitido tal primazia contemporânea. Nosso destino é viver e viver é nascer a cada instante.
Salvador Dali - Criança geopolítica observando o nascimento do homem novo.monge
13.2.11

Ninguém nos sussura o destino.
As vozes de antigamente surgem num imediato instante.
As vozes de antigamente surgem num imediato instante.
Deixamo-nos levar por qualquer vontade sem arrependimneto prévio.
Tudo o que possa vir depois, serão momentos de uma esperança anunciada.
Paro.
...
...
...
Retomo o lugar onde sempre estive.
Bom. Agradavelmente bom.
Onde a calma se faz silêncio.
Onde a vida se pronuncia silenciosamente aberta ao olhar.
monge
6.2.11
Deolinda - Parva que eu sou!
E finalmente um hino tem a letra no feminino:
Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração "casinha dos pais",
se já tenho tudo, para quê querer mais?
Que parva que eu sou!
Filhos, marido, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar
que mundo tão parvo
que para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração "vou queixar-me para quê?"
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração "eu já posso mais!"
que esta situação dura há tempo de demais.
E parva não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Musica e letra: Deolinda
Seremos parvos? Só uns? Ou todos, afinal?
Valha-nos ao menos alguém que vai sentido! E que vai tendo a coragem de o transmitir, sem se deixar apascentar como o resto do rebanho!
monge
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