9.2.08

chavela vargas

Esta delicadíssima "señorita" costa-riquenha foi-me apresentada pelo amigalhaço Nuno. Grato pela partilha, companheiro.

6.2.08

The Lost City

Si ves un monte de espumas,
Es mi verso lo que ves:
Mi verso es un monte, y es
Un abanico de plumas.

Mi verso es como un puñal
Que por el puño echa flor:
Mi verso es un surtidor
Que da un agua de coral.

Mi verso es de un verde claro
Y de un carmín encendido:
Mi verso es un ciervo herido
Que busca en el monte amparo.

Mi verso al valiente agrada:
Mi verso, breve y sincero,
Es del vigor del acero
Con que se funde la espada.

(José Martí - Versos sencillos)

É com a declamação deste poema do poeta cubano José Matrtí que, termina o filme The Lost City, onde é apresentada uma interessante panorâmica histórica de Cuba de Baptista até à tomada revolucionária de Fidel e Guevara.
Havana, Cidade Perdida,onde acontece: Uma revolução feita de ideais,
Um amor repleto de paixão,
Uma cidade viva de liberdade
Vale muito a pena!

REALIZADOR
Andy Garcia
INTÉRPRETES
Andy Garcia, Inés Sastre, Tomas Milian, Richard Bradford, Nestor Carbonell, Enrique Murciano, Dominik García-Lorido, Dustin Hoffman, Bill Murray, Lorena Feijóo, Steven Bauer, Juan Fernández, Jsu Garcia, William Marquez, Julio Oscar Mechoso, Elizabeth Peña, Millie Perkins, Daniel Pino, Tony Plana, Ruben Rabasa, Victor Rivers, Waldemar Kalinowski.

1.2.08

27.1.08

"Adúlteros desorientados"


Um adúltero tenta encontrar justificação para a sua vida dúplice no relato dos inúmeros adultérios reais, possíveis e imaginários. Com um humor desconcertante, viaja pelo estado de confusão em que estão submersos os adúlteros, permanentemente obrigados a uma vigilância constante para que a sua opção de vida não se torne transparente aos olhos dos outros. Sempre encarando o adultério como algo a que não se pode escapar, enfim uma vocação ou até uma metáfora da própria vida.

A verdade é que agora mesmo se estão a cometer no mundo milhões de adultérios nos lugares mais convencionais que se possa imaginar, mas também nos mais estranhos. Há adúlteros da tarde e da manhã e da noite e da madrugada, de fim-de-semana e de dia útil. Os sítios em que se consuma a infidelidade são também dos mais variados, desde apartamentos com cheiro a cebola a hotéis de terceira, passando por sótãos, automóveis, salas de fotocopiadoras ou palácios. E cada um destes lugares é como uma bolha em cujo interior flutuam duas pessoas que durante umas horas conseguiram escapar às imposições do espaço e do tempo. Os adúlteros fornicam, conversam, discutem ou choram no interior de um compartimento estanque em que a única coisa que chega da realidade exterior é o oxigénio.

Texto: Juan José Millás
Interpretação: Pedro Carreira

Durante toda a peça, não me saiu da cabeça aquela visão interessante que Desmond Morris apresenta sobre a bigamia em "O Macaco Nú". Desengane-se quem julga que o Homem é um ser monogâmico: não o é! Enquanto não se conseguir libertar (que não consegue!) da sua condição animal, a monogamia só tem razão de ser num processo de aculturação forçado, em que são reprimidos os instintos mais básicos, neste caso, o cio. Além disso, outras civilizações aceitam a bigamia como uma forma estruturante das relações entre os seus membros.

Lembro-me agora de ter lido em "Tristes Trópicos", do filósofo e antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, ao observar sociedades indígenas amazónicas, verificou que numa dessas tribos constituída por cinco homens e sete mulheres, rotativa e temporariamente, dois dos homens ficavam com duas mulheres cada um. Forma simples e prática de evitar conflitos e situações de ruptura. Quando o Homem quer, sabe!

monge

24.1.08

Eu, Torga!

Nem é tarde nem é cedo!

Há já algum tempo, que andava com este post, literalmente, atravessado na lembrança. Ainda não o tinha editado, nem sei bem porquê! Uma coisa tenho como certa: aquilo que vou dizer, embora não seja segredo nenhum, também não pretende ser nenhuma maledicência, nenhuma blasfémia, nem tão pouco modifica nem ensombra, absolutamente, em nada, a ideia que tenho deste "nosso" enorme escritor. Tanto que, depois de já ter vários dos seus títulos, no ano passado, adquiri a obra completa de Miguel Torga.

Dois anos de docência em Sabrosa e outros tantos a almoçar em restaurantes de S. Martinho d'Anta, permitiu-me ter um contacto directo com algumas ideias e opiniões acerca de Miguel Torga. Se os alunos seus conterrâneos diziam coisas como: "tem a mania que é importante" ou "não liga a ninguém" outros espiritos mais esclarecidos e eruditos apelidavam-no de "arrogante", "snob" e até mesmo "intratável".

Por mim, ficava-me com a ideia que, talvez fosse resultado de alguma incompreensão da alma do artista ou algum sentimento de inveja impregnasse o pensar das pessoas da sua terra. Nunca tive muito em conta todas essas considerações. Quem tivesse lido "Contos da Montanha", "Novos Contos da Montanha", "Bichos" e "Vindima" na sua juventude, de certeza que, cresceria, tal como eu, com a imagem de um homem que (des)escrevia com experiência real, o ambiente rural do seu Reino Maravilhoso. Viamos ali uma fortíssima ligação à terra e às suas gentes, de modos pobres e rudes, o que demonstrava um profundo conhecimento do seu meio natural. Não ponhamos sequer em questão que, o universo torguiano, compreende melhor do que qualquer outro, o palpitar de Trás-os-Montes no seu sentido mais cru e mais autêntico, no encontro com o seu doloroso destino.

Mas, como é que, um homem que tão bem escrevia sobre o seu povo não tinha ligações com ele? No ano passado, aquando do centenário do nascimento do escritor, numa entrevista a um semanário local, o Padre Avelino, amigo e companheiro de caça de Torga, ele mesmo admite que, apesar de ser "um homem titânico e vertical, onde não havia mentira" não era "estimado nem reconhecido" na sua terra natal e as pessoas achavam-no "mal educado, duro, agreste", "homem de poucas palavras e pouco simpático". Consciente destes sentimentos adversários para com a sua pessoa, Miguel Torga desabafava com o seu amigo: "eles um dia mo dirão"!

E o que dizer então? Por mim, sem mais demoras, fico-me com uma frase de António Arnaut, no Jornal de Letras de 17 de Janeiro de 1996: "O homem é a sua vida, o escritor a sua obra".

monge

19.1.08

Sísifo


Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E
, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com a lucidez, te reconheças.
Miguel Torga


18.1.08

Palavras de Marfim


Nem sempre a terra nos sustenta
A braços com seus vazios
Nem sempre da água nascem rios
Rumo a paragens distantes
E quase nunca as noites frias
São maiores do que os instantes


Carlos Manuel Lopes - «Ecos de Belém», poema a Mia Couto

monge

17.1.08

O primeiro livro do Pedro


Este livro, no meu entender, representa uma recompensa (e um enorme prazer) para o Pedro, por toda a sua curiosidade e o seu interesse em factos históricos nacionais e mundiais.

Nestas últimas semanas, nas idas e nas vindas para a escola do Pedro, outra coisa mais não fiz do que ser bombardeado por perguntas sobre factos da nossa história. A surpresa, veio logo quando, ele enunciava com grande facilidade os cognomes dos nossos primeiros reis e depois quando se voluntariou para pesquisar e realizar a biografia de um desses monarcas, tendo recaido a escolha, obviamente, sobre D. Pedro I.

As respostas a tantas perguntas, se umas o satisfaziam, outras não me atrevia eu a dar-lhas, esquivando-me e remetendo-o para que isso fosse motivo de pesquisa e dar assim uso a alguns recursos sobre história que pairam cá por casa. De uma forma ou de outra, lá me via obrigado a desviar algum do meu tempo e rapidamente digitar em motores de busca algumas das suas dúvidas.

Ultimamente, já sobre a história mais recente, lá voltava ele ao ataque com mais uma saraivada de interrogações: " - Para onde foi o Marcelo Caetano depois do 25 de Abril?"; "- Quem vendia as armas aos pretos na guerra colonial?"; "- O Salazar era amigo do Hitler?"; "- Por que razão o Hitler estendia a mão?" Até que finalmente, tudo desembocou na Holocausto.

Lembrava-se ainda, com a sua infindável memória, de um filme que tinhamos visto - Freedom Writers (muito aconselhável) - onde se fazia referência a Anne Frank e ao seu dramático dia-a-dia. Daí, nada melhor do que, presenteá-lo com este título para que assim, fique a conhecer melhor a dimensão do que o ódio é capaz.

Quando, hoje, lhe atirei com o livro para cima da cama, depois dos mais carinhosos agradecimentos, surpreende-me assim: " - Pá, sabes qual era o meu maior sonho? Era ter vivido o 25 de Abril!"

Nã! Isto devem ser coisas de garoto que ouve música de intervenção e vê videos da dita revolução!

monge

13.1.08

Primeiro livro do ano


Personagem oculta por inúmeras e sucessivas camadas de interpretações ideológicas, quer eruditas quer populares, a figura verídica do primeiro rei de Portugal só muito hipoteticamente se pode reconstituir nas suas dimensões históricas. O mito sobrepõe-se, teimosamente, à história, para justificar a permanência da nação que fundou e justificar a confiança que os cidadãos de todos os tempos têm posto na colectividade a que pertencem. Mas pode-se tentar descobrir como nasceram as diversas narrativas tecidas em trono da sua personalidade, examinar o sentido que tinham quando apareceram e reconstituir os sucessos de que Afonso Henriques foi protagonista principal. Se não é possível traçar-lhe o retrato preciso, pode-se, ao menos, estudar as suas orientações politicas e administrativas, conhecer os seus principais auxiliares e justificar o êxito da sua obra. Apesar de assim desaparecer o herói sobrenatural, toma inegável relevo o seu talento político e militar e, por conseguinte, o seu direito a ser de facto considerado o rei fundador de Portugal.

Já se tinha postado sobre Afonso Henriques e sobre este título aquando da criação do blog. Agora que recebi um voucher de acumulação de pontos de uma livraria, fui a correr convertê-lo neste título, do qual já andava à coca. Estou convencido que, deve ser interessante ler a biografia deste monarca pela pena de José Mattoso.

monge

11.1.08

"PAX ROMANA"


A Pax Romana, expressão latina para designar "a paz romana", foi o longo período de relativa concórdia experimentado pelo Império Romano. Iniciou-se quando Augusto César, em 29 a.C., declarou o fim das guerras civis e durou até ao ano da morte de Marco aurélio, em 180 d.C.

A ESTE - Estação Teatral - companhia sedeada no Fundão, levou a cena esta peça, no Teatro de Vila Real, representando um pelotão de legionários romanos a recuperar das suas mazelas, depois de uma refrega com o inimigo.

Bem, devo dizer que o encantamento deste momento resultou muito bem, não pelo texto em si (falado num engraçado "latinês") mas sim pela expressão corporal, pelo trabalho gestual, pela pantomima, valorizando sobremaneira o processo criativo dos actores, tornando-os capazes de cativar os sentidos do espectador. Muito bom!

monge

10.1.08

A Memória das Pedras

Vontade

Que bom seria ser feliz!
Cortar o tédio pela raíz.
Embarcar nas memórias da saudade
partir sem destino marcado
regressar sempre a algum lado
e acreditar em todas as verdades.
Pudera ser eternamente assim!
Mesmo não sabendo de mim
não esqueço que trago comigo
sombras de um passado antigo.
Mas o vento bate devagar
empurrando com um surdo olhar
a vontade de viver.

monge

7.1.08

Alegria


" o ser humano que não sente alegria naquilo que faz não pode esperar que a consiga transmitir àqueles que o vêem"

Brecht

monge

6.1.08

Vamos cantar as Janeiras ...


Encontro de cantadores de Janeiras

Grande Auditório do Teatro de Vila Real. 5 de Janeiro 2008/21h00

Valeu a rusticidade dos trajes, a jovialidade dos cantadores e o enorme calor humano que se sentiu naquela sala, aplaudindo efusivamente em prol da defesa e divulgação da Cultura Popular.

Guardo ainda da minha meninice, as rondas que também fazia neste dia pelas frias e alegres ruas da minha aldeia, acompanhando o grupo de cantadores que ia enchusmando à medida que decorria a ronda. O que na altura caía no saco, era o consolo de uma mão-cheia de figos, castanhas ou nozes, ou então uma peça do ainda fresco fumeiro e por vezes algum dinheiro.

Desde ai, já só me lembro, mais recentemente, de aparecerem uns catraios à espera de "algo" ou de alguma moedita, porque outra coisa não mereciam, visto que a sua presença só se anunciava por um denunciador bater na porta e um seco: " -Dê-nos as Janeiras!".

Quem me dera reproduzir aqui, algumas das quadras usadas em tais cantorias, mas a memória já me atraiçoa e de nada adiantariam os salpicos de uns poucos versos despernados. Talvez para o ano. Até lá.

monge

5.1.08

FAN


FAN — Festival de Ano Novo - música séria para gente divertida
Edição 2008

Para dar uma espreitadela: www.festivaldeanonovo.com .

No folheto, poder-se-ão ainda encontrar algumas informações adiocionais tais como: mapas, restaurantes e hotéis, de Bragança, Chaves e Vila Real.

monge

4.1.08

B(logo), existo ...


Quando respondemos em inquéritos, quais são os nossos hobbies, vejo-me sempre a responder as mesmas coisas: literatura; cinema; música e viagens (e estranhamente, viver).

Quando surgiu a decisão de criar este blog, mais não foi do que fazê-lo com um sentimento de partilha. Passado meio ano da sua existência, poderá ser altura de fazer um balancete e concluir que, a única coisa que lamento é não ter tido tempo para partilhar mais daqueles momentos.

Não se pense (embora se diga) que isto soa a qualquer tipo de vaidade ou exibicionismo. Errado! Se se tornou um espaço (muito) pessoal? Certo! Julgo que todos os blogs o são! Mas, só com a intenção de que, essa individualidade se transformasse em comunhão. Se li, se vi, se ouvi, se fui e se vivi, soa-me estranho o emprego de outra forma verbal que não seja a que reflecte a pessoa que fala, o agente da acção.

No entanto, na sua génese, este espaço pressupunha a presença de um nós: monge e eremita (pessoa com quem partilhei grandes momentos da minha vida, muitos serões de poesia e outras tantas loucuras sãs!, e que no espaço de vinte anos, só tomamos um fugaz café, numa soalheira tarde outonal) . Por isso, a vontade de blogar com o eremita foi crescendo, com a ideia de ouvir e saborear palavras sentidas para tentar (re)fazer a (re)construção de momentos perdidos de uma existência comum. Vejo agora que, em toda a congeminação deste espaço, o eremita, sem ser tido nem achado, boamente se prontificou também a partilhar alguns dos seus momentos tendo em vista talvez o mesmo objectivo. Grato, meu bom amigo!

Agora, quanto a todos aqueles que visitam este canto, são uma agradável companhia, serão sempre escutados e nunca ficarão sem uma palavra de volta.

Seja bem-vindo quem vier por bem!

monge

1.1.08

Ecce homo


Sem sono!



Ideias para um post: ecce homo.



Embora este chão de terra seja o mesmo, é preciso a sua renovação constante; estrumá-lo com todos os momentos que nos oferecem e revirá-lo para que outras memórias possam respirar.

Então, mergulhemos o braço audaz com vigor no saco e que venha a mão cheia de outras sementes anunciadoras de boas colheitas.

De cada vez que, qualquer data se aproxima, muitas vezes tenho pensado que é chegada a altura de dar novo rumo às coisas. Mas, foram já tantas as datas e tantas as coisas prometidas ao longo do tempo que, julgo ter-me esquecido de tudo o que foi prometido.

Não é por falta de vontade nem por falta de coragem, simplesmente, os dias vão passando e o significado que outrora se afigurava como fruto, paulativamente, vai-se diluindo e enrolando em outros motivos.

Tenho pensado, seriamente, em fundar a "seita do dia anunciado"para assim, encarar as coisas como definitivas.Qual quê!? Puro engano!Nada é definitivo .Tudo é tão inconstante!

Seja como for ,o início de cada ano pode servir como um marco ou sinal de viragem.Pois, mas o tempo passa e também nós passamos a vida atrás do tempo.

Olharmos para o passado é a pior forma de envelhecermos, antes termos de rejuvenescer no futuro, o lugar onde podemos encontrar alguma felicidade.

Precisamos de olhar para as coisas e vê-las dentro de nós.Sim, porque tudo temos dentro de nós.

A verdade só existe se acrteditarmos nela; a poesia só tem significado se as palavras nos tocarem a alma; a vida só é é real se a consegirmos viver...e por aí adiante!
monge

19.12.07

O Garrinchas

"De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis por se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste oficio, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim...
Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse doutra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas.
Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe em cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam.
Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra dum borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam.
O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas.
Quando foi a dar conta, passava das quatro. E, como anoitecia cedo, não havia outro remédio sento ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante.
E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer?
Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-lhe lá.
E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...
Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!
Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.
Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.
Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois dum clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos, é que não.
Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao Céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe.
- Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também.
Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia.Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila!Na altura da romaria que arranjassem um novo.
Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de se cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.
- É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
- Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia dum patriarca. - A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José"
Miguel Torga
Novos Contos da Montanha

- PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE -
monge

8.12.07

Sexta-feira GRANDE

Ontem, foi assim ...

Programa (manhã)
- Sessão de abertura ... blá...blá...blá
- Apresentação da obra : "Património Imaterial do Douro: Narrações Orais" (Contos, Mitos e Lendas) Vol.I - Alexandre Parafita;
- Pausa para café (com produtos da terra ... divino);
- Palestra "Paisagem, Memória e Esquecimento" Joaquim Pais de Brito.
Magnifico - alguns resquícios:
" ... a paisagem resulta do nosso olhar, da nossa presença lá. A maneira como se olha é uma construção do olhar, dependente de nós e dela própria."
" ... a escrita cria imagens ... e temos de encontrar um cenário daquilo que estamos a ler"
" ... as memórias são construções sociais que organizam um conjunto de sinais e marcam um tempo enquanto narrativa, na qual existimos."
" ... às vezes os conflitos resolvem-se, esquecendo-os."
" ... os indivíduos precisam de marcar os lugares de que fazem parte."







Ala que se faz tarde

V Ciclo de Estudos de Miguel Torga:

"Contextualização sócio-económica da Região na obra de Miguel Torga, a evolução actual e a preparação para o contexto futuro"
Arquivo Distrital de Vila Real - 14:30

As comunicações apresentadas debruçaram-se somente sobre: "Cenários para 2030: Implicações para a região do Douro" e "Breves apontamentos sobre o Plano do Desenvolvimento Turístico do Vale do Douro" e "Breves apontamentos sobre o Plano do Desenvolvimento Turístico do vale do Douro".
Cenário pouco agradável. Neste ciclo faltou um dos comunicadores com "Torga e o Reino Maravilhoso - o abraço da Literatura a uma Economia em mudança". Talvez o que iria dizer alguma coisa sobre Torga.

Àrvore de Natal - discussão com o Pedro sobre se iamos armar ou montar a árvore de Natal. Decidimos que montar ficava melhor.

Pela noite ...




































Liberdade é um exercício difícil. Se houvesse possibilidade de salvar o mundo seria através da Poesia.

Miguel Torga.

basta uma porta de luz
para incendiar o poema
assim a urze do teu olhar
me entre na boca

António Cabral
monge

6.12.07

PortuGalizar

Antes de tudo, não se pretende aqui postar um artigo de opinião em que, o título associado à imagem possa trazer interpretações erróneas.
Pretende-se sim, encerrar este curto mas enriquecedor percurso cultural galego, dando relevo a uma interessante personalidade que também fez parte de todo o roteiro: Isaac Estraviz. Este professor Titular da Universidade de Vigo no campus de Ourense, na área da Didáctica da Língua e Literatura, possui três licenciaturas e um doutoramento em Filologia Galega é um acérrimo defensor do galego-português alegando para isso que, o castelhano, na Galiza, é um idioma intruso.
Este linguista, lexicólogo e "dicionarista" tem vindo a incidir a sua investigação tanto no território galego, como no território português, chegando à conclusão que muitos dos vocábulos são comuns a ambas as línguas, as quais, segundo deu a entender, lhe parece que o galego seja um português da Galiza, mais ou menos mesclado de castelhano.
Consciente das dificuldades que a língua galego-portuguesa enfrenta, Isaac Estraviz pretende editar o seu dicionário "de nove quilos" (por agora só Dicionário e-Estraviz) não desistindo por isso do seu contencioso com Madrid, que ao longo dos tempos parece ter vindo a pretender a aniquilar o português da língua galega.
Estas foram algumas das poucas impressões que nos ficaram deste persistente professor, do qual, agora, lamentamos não ter partilhado mais da sua companhia e erudição.
Ainda assim, sugere-se um saltinho aos principais movimentos que, na Galiza, lutam pela "independência" da sua língua em relação à "dominação castelhana":
MDL - Movimento da Defesa da Língua (http://www.mdl-gz.org/);
Agal - Associação Galega da Língua (http://www.agal-gz.org/);
Associação de Amizade Galiza-Portugal (http://www.lusografia.org/).

Obs.: Note-se que o "grafitti" da imagem está escrito em português, muito diferente do que seria se estivesse escrito em castelhano : Galicia no es España.

P.S.: Quando perguntei ao professor o que ele achava do facto de, nós portugueses, pretensiosos poliglotas, fazermos desmesurados esforços para tentar falar espanhol, redondamente respondeu ser isso um absoluto absurdo porque, a língua é a nossa identidade. Mais nada!

Mesmo no fecho deste post, demos um salto ao site da Agal e ainda hoje, constatamos: Pessoas de diferentes colectivos galegos constituem a Associação Pró-Academia Galega da Língua Portuguesa.

3.12.07

Anxo Rei

As palmas até poderiam ser estas!
Agora, a bola de carne, o pão cozido no forno ali ao lado, a chouriça assada, as castanhas assadas e um deslumbrante licor de café, tudo isto numa taverna com Anxo Rei a interpretar as músicas do seu álbum, tornou o serão inesquecível.

monge