19.12.07

O Garrinchas

"De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis por se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste oficio, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim...
Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse doutra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas.
Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe em cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam.
Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra dum borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam.
O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas.
Quando foi a dar conta, passava das quatro. E, como anoitecia cedo, não havia outro remédio sento ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante.
E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer?
Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-lhe lá.
E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...
Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!
Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.
Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.
Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois dum clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos, é que não.
Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao Céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe.
- Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também.
Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia.Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila!Na altura da romaria que arranjassem um novo.
Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de se cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.
- É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
- Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia dum patriarca. - A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José"
Miguel Torga
Novos Contos da Montanha

- PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE -
monge

8.12.07

Sexta-feira GRANDE

Ontem, foi assim ...

Programa (manhã)
- Sessão de abertura ... blá...blá...blá
- Apresentação da obra : "Património Imaterial do Douro: Narrações Orais" (Contos, Mitos e Lendas) Vol.I - Alexandre Parafita;
- Pausa para café (com produtos da terra ... divino);
- Palestra "Paisagem, Memória e Esquecimento" Joaquim Pais de Brito.
Magnifico - alguns resquícios:
" ... a paisagem resulta do nosso olhar, da nossa presença lá. A maneira como se olha é uma construção do olhar, dependente de nós e dela própria."
" ... a escrita cria imagens ... e temos de encontrar um cenário daquilo que estamos a ler"
" ... as memórias são construções sociais que organizam um conjunto de sinais e marcam um tempo enquanto narrativa, na qual existimos."
" ... às vezes os conflitos resolvem-se, esquecendo-os."
" ... os indivíduos precisam de marcar os lugares de que fazem parte."







Ala que se faz tarde

V Ciclo de Estudos de Miguel Torga:

"Contextualização sócio-económica da Região na obra de Miguel Torga, a evolução actual e a preparação para o contexto futuro"
Arquivo Distrital de Vila Real - 14:30

As comunicações apresentadas debruçaram-se somente sobre: "Cenários para 2030: Implicações para a região do Douro" e "Breves apontamentos sobre o Plano do Desenvolvimento Turístico do Vale do Douro" e "Breves apontamentos sobre o Plano do Desenvolvimento Turístico do vale do Douro".
Cenário pouco agradável. Neste ciclo faltou um dos comunicadores com "Torga e o Reino Maravilhoso - o abraço da Literatura a uma Economia em mudança". Talvez o que iria dizer alguma coisa sobre Torga.

Àrvore de Natal - discussão com o Pedro sobre se iamos armar ou montar a árvore de Natal. Decidimos que montar ficava melhor.

Pela noite ...




































Liberdade é um exercício difícil. Se houvesse possibilidade de salvar o mundo seria através da Poesia.

Miguel Torga.

basta uma porta de luz
para incendiar o poema
assim a urze do teu olhar
me entre na boca

António Cabral
monge

6.12.07

PortuGalizar

Antes de tudo, não se pretende aqui postar um artigo de opinião em que, o título associado à imagem possa trazer interpretações erróneas.
Pretende-se sim, encerrar este curto mas enriquecedor percurso cultural galego, dando relevo a uma interessante personalidade que também fez parte de todo o roteiro: Isaac Estraviz. Este professor Titular da Universidade de Vigo no campus de Ourense, na área da Didáctica da Língua e Literatura, possui três licenciaturas e um doutoramento em Filologia Galega é um acérrimo defensor do galego-português alegando para isso que, o castelhano, na Galiza, é um idioma intruso.
Este linguista, lexicólogo e "dicionarista" tem vindo a incidir a sua investigação tanto no território galego, como no território português, chegando à conclusão que muitos dos vocábulos são comuns a ambas as línguas, as quais, segundo deu a entender, lhe parece que o galego seja um português da Galiza, mais ou menos mesclado de castelhano.
Consciente das dificuldades que a língua galego-portuguesa enfrenta, Isaac Estraviz pretende editar o seu dicionário "de nove quilos" (por agora só Dicionário e-Estraviz) não desistindo por isso do seu contencioso com Madrid, que ao longo dos tempos parece ter vindo a pretender a aniquilar o português da língua galega.
Estas foram algumas das poucas impressões que nos ficaram deste persistente professor, do qual, agora, lamentamos não ter partilhado mais da sua companhia e erudição.
Ainda assim, sugere-se um saltinho aos principais movimentos que, na Galiza, lutam pela "independência" da sua língua em relação à "dominação castelhana":
MDL - Movimento da Defesa da Língua (http://www.mdl-gz.org/);
Agal - Associação Galega da Língua (http://www.agal-gz.org/);
Associação de Amizade Galiza-Portugal (http://www.lusografia.org/).

Obs.: Note-se que o "grafitti" da imagem está escrito em português, muito diferente do que seria se estivesse escrito em castelhano : Galicia no es España.

P.S.: Quando perguntei ao professor o que ele achava do facto de, nós portugueses, pretensiosos poliglotas, fazermos desmesurados esforços para tentar falar espanhol, redondamente respondeu ser isso um absoluto absurdo porque, a língua é a nossa identidade. Mais nada!

Mesmo no fecho deste post, demos um salto ao site da Agal e ainda hoje, constatamos: Pessoas de diferentes colectivos galegos constituem a Associação Pró-Academia Galega da Língua Portuguesa.

3.12.07

Anxo Rei

As palmas até poderiam ser estas!
Agora, a bola de carne, o pão cozido no forno ali ao lado, a chouriça assada, as castanhas assadas e um deslumbrante licor de café, tudo isto numa taverna com Anxo Rei a interpretar as músicas do seu álbum, tornou o serão inesquecível.

monge

30.11.07


Paraíso da Palabra

A palabra é celme da existencia, flor da auga do manancial da vida, foula que acariña o alento e nos enche a casa de gabanzas.

Se vestimos de silêncio a voz morrinã, morrerá a emoción, o sentimento, pois será sentido de distinta forma e distintas serán as personas faladoras.

Se orbalho ou orbalheira abandonan os nosos beizos, deixará de orbalhar na nosa terra, nas cabezas, nas entranãs, para pasar a ser simplesmente outra forma de chover, algo mais maina.

De secarem os loureiros gloriosos e os sagrados sabugueiros ateigados de sanxoáns, perderá unha fatia o arco da vella e ficaremos sen remedios para a doenza.

Como saberemos dos rios de auga pura e clara onde moran as bogas e as xanas, se deixan de medrar longos amieiros?

Onde procuraremos o acougo da sombra fresca se tronzamos os carballos?

Se as rolas deixan de cantar nas polas enramadas, como habemos arrolar as noites da desconsolada infancia?

Coa desaparición da brétema, que enfeita encostas e valgadas, marcharán e o misterio a terras afastadas.

A luarada sementa luz en branãs e varcias, cavorcos e chairas, e pinta de prata as gavelas de toxos, xestas e carqueixas.

A raxeira do sol trae rechouchíos de lavercas que non paran de peneirar nubes e ventos até a chegada do solpor.

Se esquecemos o pequeno e festeiro rairo, quen alegrará as tardes das mil pozas de oucas e rabazas, de auga mansa?

Se lhes pomos lume ás seras de pan, onde aniñarán os fugaces paspallás?

Con que van enredar as mans cativas se non hai estraloques nen cichotes?

Como animaremos os caminõs de lama dos arrieiros sen asubíos, sen esgutíos?

Como van falar de amor os namorados sen amoras, sen morangos encarnados?

Se ocultamos as xoaniñas e as borboletas, como imos ver as cores do espírito da fala?

Se deixamos que morran as palabras herdadas, alfaias de tempo e son coas que campa a alma, estamos condenados. Seremos olladas embazadas, mentes atoldadas. Mar de bágoas alagará a luzada.

por Delfin Caseiro

É com este magnífico texto que Delfin Caseiro, outro autor de Límia e incansável cicerone de toda a jornada, abre a modos de prefácio o álbum de Anxo Rei, todo ele musicado com letras do poeta Antón Tovar. Muito bom!

monge

28.11.07

Morte


Entranãrei as cinsas no teu ventre, o enigma azul dun crisantemo, a bágoa vella dunha palabra, a música triste do meu canto, ese labio abismo que te afirma.

Serei remol de lume vivo, vella serpe de pan e linõ, fariña munda, oceánica esperanza, un laio de estirpe a zoar polas gándaras, un desexo de lúas na razón última do universo.

Viverei ainda as paisaxes antigas, o tempo fluvial dos salgueiros, a eufonía anfibia dos versos, o goce azul dos horizontes, o destino infinito dunha nostalxia.

Contarei na primavera os séculos, o tránsito paseninõ das agonias, as metáforas ocultas da incerteza, as consagracións intimas do solpor.

E gardarei as horas no silencio para que a noite só sexa signo e caricia, para que no teu libro de auga apalpe a palabra carnal, a idolatría.
Antón Riveiro Coello, Limaiaé

Sem pretender ser escrito em verso, julgo que foi o livro mais poético que até agora li!
Antón Riveiro Coello, juntamente com o ilustrador, um mexicano Manolo Figueiras, também eles nos acompanharam peregrinamente em todo o roteiro, no dia dedicado a este autor. A poesia, a narrativa e a literatura de viagens, são géneros que Antón Riveiro Coello tem cultivado numa obra reconhecida já com múltiplos galardões. É autor, entre outros livros, de A quinta Saler, As rulas de Bakunin, Cartafol do Barbanza e A esfinge de Amaranto.
Limaiaé tenta aprofundar, desde a fusão poética das palavras e as imagens justapostas, na procura insondável das lembranças e as sensações longinquas. mas não perdidas. É um exercício de comunhão com a terra. Uma verdadeira geografia da alma.
monge

27.11.07

Espazos literários da Limia

Os espaços literários de Limia, organizados pela Consellería de Cultura da Galiza e a Delegação da Cultura do Norte, visou conhecer o património cultural limiano (Xinzo de Limia) onde participaram meia centena de várias personalidades vinculadas à cultura galega e portuguesa. Como elemento da redacção do jornal lá da escola, também fomos bafejados com um convite e toca então de fazer o saco para esta expectante jornada.
O que levamos? Por mim, rebentava de curiosidade em ir conhecer aspectos da vida desta personalidade contemporânea e amiga de Torga, com um percurso de vida simples e fascinante.
Com um magnífico naipe de anfitriões, desde escritores, um arquitecto, um ilustrador, um fabuloso contador de histórias, lá fomos percorrendo os cantos que foram servindo de inspiração ao poeta. Então, ficamos ali convencidos que, "qualquer lugar é um espaço literário" porque ouvir poesia, magnificamente declamada, à sombra de carvalhos, no meio de extensíssimas veigas, no alto de uma torre, num claustro de um mosteiro, cantada numa taberna e mesmo na casa do autor (que mantém todos os objectos no sítio desde a sua morte), garanto que é qualquer coisa de transcendente!
O que trouxemos? O moleskine a transbordar e os ouvidos prenhes de palavras e boas amizades galegas e com enorme vontade de lá voltar para calmamente percorrer de novo todos aqueles espaços. Magnífico!!!

LEMBRANZAS

Lémbrome que lembraba unhas lembranzas
que foron un pasado que non teño
En desmemoria habito, fun, non veño
máis que de altos olvidos e inquedanzas

Coido que fun feliz cando era neno,
mais nada sei do alén, rosa de lama,
se cadra anda comigo ó pé da cama
na que me deito e fuxo. Hai un aceno

mortuorio, non penso, calo en sonõs
as desmemorias bulen fuxitivas
e eu non busco memorias nos ensoños

Aprendín a morrer, ó neno olvido,
il ven tódalas noites, mortes vivas,
sen traguer as lembranzas que non pido.

(Antón Tovar, Cadáver adiado, 2001)
monge

18.11.07

Terra Firme

PRIMEIRO ACTO

Cozinha de casa de lavoura. Lareira, mesa, louceiro, preguiçeiro e bancos pequenos. Porta à esquerda para o pátio, de que se vê parte. Outra á direita, que comunica com o interior da casa. Quando o pano sobe, estão quatro pessoas em cena, dois homens e duas mulheres, sentadas à lareira, a conversar. Uma das mulheres faz meia. Luar lá fora.

CENA I

TIO ANTÓNIO
(erguendo-se)

Pois não vendo, não. Lá que te fazia arranjo, concordo. Mas não vendo. É onde semeio as batatas no cedo, tem a costeira que dá mato, fica-me ali à mão...

TIO JOAQUIM
(erguendo-se também)

Não estejas a desconversar! Fala-me com a franqueza com que te falo! Então as Bajancas ficam-te à mão? Diz que não te interessa o negócio, e acabou-se. Agora que a leira te fica à mão !... Nos calcanhares do mundo! A bem dizer no termo do povo! A mim convinha-me, por ter o migalho ao pé ... Juntava tudo ...

TIO ANTÒNIO
(irónico)

Por esse andar, também eu te podia comprar o teu bocado e aumentar o meu ... Se é para juntar ...

TIA GUILERMINA

Eu, terras ... estou mais farta ... por minha vontade, fazia-se a escritura amanhã ...

TIO ANTÓNIO
(irritado)

Pois se é da tua vontade, não é da minha! Enquanto eu viver, não largo um palmo a ninguém.

Foi este belo texto de Miguel Torga que, ontem, o grupo Filandorra do Nordeste levou a cena no magnífico teatro de Vila Real. Apesar de uma tão fria noite, foram momentos aconchegantes que se passaram ali, junto do lar daquela família transmontana, imaginado-nos sentados no escano com enorme vontade de ali estar. Mal chegamos a casa, entusiasmadíssimo, o Pedro quase que suplicou:
- Pá, quero ler o livro. ( ... e já o leva meio vindimado!)

Obs.: A peça "Terra Firme", drama em três actos, foi a obra escolhida pelo Filandorra para assinalar o centenário do nascimento de Miguel Torga, cuja estreia ocorreu na terra natal do escritor e percorreu 11 concelhos da região do Douro ao longo do ano. "Terra Firme" conta a história de Ti António, um velho camponês agarrado à terra, que sofre e desespera por o filho ter escolhido a vida de marinheiro e andar, há 20 anos, no mar alto, sem jamais ter voltado à terra natal.
monge

16.11.07

CONTOS DO NASCER DA TERRA
"Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como uma baloa.Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário em todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
—Pai!
Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez."

Já tinha lido sobre Mia Couto, mas nunca tinha lido Mia Couto. E, simplesmente, fiquei encantado. Bem que me avisaram quando me ofereceram o livro: - olha que é um autor com uma linguagem muito fértil; um inventor de palavras e de termos. E realmente, ao longo da leitura, os seus neologismos não cessam de nos surpreender, se não vejamos: ... letrinhei, ... desentretanto; ... devagaroso; ... tudo irresultou; ... ela se tinha imensado. Ou então expressões: ... metida em vara de sete camisas, ... promete mundos sem fundos ... às duas por muitas, ... tudo a pratos lavados, ... .

O que não me disseram foi que, parece ser um autor que se preocupa em interpretar a verdadeira natureza das coisas, para as quais consegue arranjar definições de original beleza.

"Necessitamos não do nascer do Sol. Carecemos do nascer da Terra."

Em todo o mundo, os pobres têm essa estranha mania de morrerem cedo”.
"A sede se inventa é para a miragem das águas."
"O futuro é um país que não se pode visitar."
"Nem tudo se explica, para que se compreenda melhor. Para ver a gente necessita transparência, mas se tudo fosse transparente todos seríamos cegos."
"A vida não tem metades é sempre inteira."
"... a morte é o fim sem finalidade."
"Eu quero a paz de pertencer a um só lugar, a tranquilidade de não dividir memórias. Ser todo de uma vida."
"A memória ... me faz crescer cheiros nos olhos."
"Os boatos viajam à velocidade do escuro."
"Se acredito, eu? Sei lá. Minha crença é um pássaro. Sou crente só em chuva que cai e esvai sem deixar prova."
"Careço de um lugar para esperar, sem tempo, sem mim."
"A punição do sonho é aquela que mais dói."
"O que o homem tem do pássaro é inveja. Saudade é o que o peixe sente da nuvem."
"Uma criança é um homem que se dá licença de voar."
"O cansaço é um modo do corpo ensinar a cabeça."
"A vida é um por enquanto no que há-de vir."
"Ingrata é a morte que não agradece a ninguém."
"Na Natureza ninguém se perde, tudo inventa outra forma."
"A água corre com saudade do que nunca teve: o total, imenso mar."
"A tristeza é uma janela que se abre nas traseiras do mundo."
"Abrigo maior não encontrei senão nas paragens da memória."
"Não há medo maior que não se entender humana a voz de outra humana pessoa."


E foi assim.

monge

15.11.07

O verdadeiro segredo ... ser feliz.



Posso ter defeitos, ficar ansioso e ficar irritado algumas vezes
Mas não esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo.
E posso evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios,
incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.

É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um "não".
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo ...
Fernando Pessoa

monge

14.11.07

«The Secret»



Fala-se por aí, à boca cheia, deste título e de todo o sucesso que tem feito por esse mundo fora. Ao que parece, surge como uma nova teoria de auto-ajuda onde é revelado que, sozinhos, podemos mudar tudo o que quisermos na nossa vida, isto desde que, consigamos controlar e aprender a usar a Lei da Atracção. Segundo dizem, trata-se de uma lei natural em que, nós conseguimos atrair tudo aquilo que pensamos, seja positivo ou negativo, e, assim sendo, poderemos adquirir o poder de modificar o que nos desagrada na nossa vida.

Até que pode ser. Fiquei curioso!



monge

10.11.07

Os Fantasmas de Goya

Como isto dos posts é como as cerejas, por estes dias, caiu-nos no colo (e no goto) este título que também versa (a apaixonante) temática da Inquisição.

Não nos pareceu, um filme só sobre Goya, mas sim um retrato da Espanha nos finais do Séc. XVIII, ainda subjugada pelo intolerante e impiedoso espectro do Santo Ofício e pelo entrecuzar das invasões napoleónicas e os ideiais revolucionários.
Além de uma excelente fotografia, revela-nos também magníficas e sóbrias interpretações. Vale a pena!

monge

9.11.07

Mais vale tarde do que nunca!


Porque um desafio é sempre um desafio, e, não sendo homem de lhe virar as costas, finalmente, após prolongada convalescença gripal, é tempo de aceitar o repto lançado pela amiga avelaneiraflorida (cantares de amigo). Então, de acordo com as regras que se seguem, a resposta aqui vai.

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs;
7ª) Divulgar o nome do livro e do autor.

"O tratado sobre a autoridade secular de Lutero separa claramente o reino de Deus e do mundo, onde a obediência deve ser absoluta mesmo que a ordem seja injusta".
Armelle Le Bras-Chopard, As Putas do Diabo. Circulo de Leitores, 2007.

Abstract:

"Entre os séculos XV e XVII, os processos de bruxaria conduzem à fogueira sobretudo mulheres, que representam oitenta por cento das condenações. Os tratados de demonologia, escritos por teólogos, inquisidores ou magistrados a partir de confissões obtidas sob tortura, descrevem as práticas a que as bruxas se entregam, desde a cópula com Satanás para obterem os seus poderes maléficos, ao roubo de crianças recém-nascidas a fim de serem comidas ou transformadas em unguentos ...
Porém, para a autora, a feminilidade e o perigo que ela representa foram o verdadeiro móbil desta perseguição. Um fenómeno mais político do que religioso, que levou à cosntrução no masculino do Estado moderno, e que desapareceria apenas quando as bruxas deixaram de ser necessárias, ou seja, quando as mulheres foram colocadas sob "tutela", o que as tornava menos perigosas.
Contudo, hoje, que as mulheres ocupam um lugar cada vez maior no espaço público, não se irá a assistir ao regresso das bruxas?"

Obs.: «As Putas do Diabo», era o nome com que Lutero designava as bruxas do seu tempo por terem supostamente relações sexuais com o demónio.

"A tolerância é sempre um indício de que um poder é visto como seguro; quando se sente em perigo, nasce sempre a pretensão de ser absoluto; nasce, portanto, a falsidade, o direito divino do seu privilégio, a inquisição."

M. Frisch

Nota: O título divulgado foi o segundo a ser "pescado", em virtude do primeiro, não ter as páginas necessárias ("História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar" - Luis Sepúlveda).

monge

31.10.07

E por falar em PESSANHA...:

"O Simbolismo, que ocorreu em período de transição do séc. XIX para o séc. XX, rejeita as correntes materialistas, racionalistas, empíricas e mecânicas trazidas pelo avanço da ciência da época e valoriza valores e ideais que estavam esquecidos: o espírito, o sonho, o absoluto, o nada, o bem, o belo, o sagrado etc.
A origem dessa tendência situa-se na aristocracia decadente e na classe média. Essas camadas sociais, por não participarem da euforia do progresso materialista, que solidificou o poder burguês, propõem a volta da supremacia do sujeito sobre o objeto, rejeitando desse modo o desmedido valor dado às coisas materiais.
Por isso, os Simbolistas procuraram resgatar a relação do homem com o sagrado, com a liturgia e com os símbolos. Buscam o sentimento de totalidade, que se daria numa integração da poesia com a vida cósmica, como se ela, a poesia, fosse uma religião.
Dentro dessa nova concepção da realidade e da arte, as correntes materialistas racionalistas não correspondem às exigências Simbolistas e isso faz com que eles sejam criticados pela sociedade, que chegou a clama-los de malditos ou decadentes.
Apesar de ignorar a opinião pública e fechar-se, numa quase religião da palavra e de suas capacidades expressivas, os simbolistas não conseguem sobreviver por muito tempo. O mundo presencia a euforia capitalista causadas pelo o avanço científico e tecnológico, a burguesia vive um período de prosperidade, a "belle époque", e isso só terminaria com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914.
É nesse clima que o Simbolismo desaparece, porém, deixa para o mundo um alerta sobre o mal trazido pela civilização moderna e industrializada. Eles deixam também perspectivas literárias que abrem as portas para o surgimento de novas correntes literárias e artísticas.
A Primeira Guerra Mundial, simboliza o mal trazido pela civilização moderna e industrializada e marca o fim do simbolismo."

Mas o Simbolismo resiste à visão materialista e hegemònica do mundo. Simbolismo que se manifesta com violência: Sinal de impotência face à ditadura da razão. Simbolismo necessàrio num mundo onde o progresso cientifico e tecnològico nos afasta, em vez de nos aproximar, cada vez mais da realidade. A não ser que a realidade seja um mito (tudo é ilusão...) e o "afastamento" provocado pelas novas tecnologias da informação, nomeadamente, seja uma forma simbolica de o conquistar. Tendo no virtual a sua expressão màxima e contemporânea. Mas duvido!...

Abraço concreto ,
eremita

Tranquilidade


Um homem muito rico recebeu, um dia, a visita de outro homem. Este vinha pedir-lhe auxilio e contou-lhe, nervosamente, amachucando o chapéu entre as mãos, as desgraças que lhe tinham acontecido. Se o senhor Jerónimo – era o nome do homem muito rico – quisesse, podia salvá-lo. De contrário, teria de vender a sua casa, as suas vacas, a sua terra. E a mulher e os filhos ficariam na miséria.
O senhor Jerónimo ouviu, contrariado, o que o homem lhe contava, e respondeu-lhe, de mau humor, que o não podia auxiliar.
O homem ficou-se, por momentos, de olhar vago e triste, olhando para o chão. Depois, agradeceu e saiu. E o senhor Jerónimo, à janela, viu-o caminhar curvado, pela estrada que ia dar ao monte onde o homem tinha a sua casa.
Nessa noite, deitado na sua cama, o senhor Jerónimo não conseguia dormir. Vinha-lhe ao pensamento o olhar triste do homem que lhe pedira auxílio, e, no silêncio da noite, até o tiquetaque do relógio parecia mais forte do que nas outras noites. Mal-humorado, o senhor Jerónimo murmurou:
- “Que tenho eu com as desgraças de cada um”?
Era como se respondesse ao tiquetaque do relógio, que parecia bater mais forte para o censurar.
Fora, o vento que se levantara fazia gemer tudo onde batia.
O senhor Jerónimo sentou-se na cama. Os ruídos em volta aumentavam, o tiquetaque do relógio parecia cada vez mais forte.
- Eu dou em doido! – disse o senhor Jerónimo.
Depois teve um pensamento. E como por encanto, os ruídos em volta serenaram e o tiquetaque do relógio parecia agora vir de longe. O senhor Jerónimo levantou-se e vestiu-se. E saiu. E seguiu a estrada que ia dar a casa do homem que lhe pedira auxilio. Bateu à porta. O homem abriu-a. E o senhor Jerónimo disse-lhe:
- Pode contar comigo.
E voltou para casa. Quando voltou a deitar-se, pôs-se à escuta. O vento, fora, serenara, já não batia nas coisas e todos os ruídos, em volta, se deixaram de ouvir. E o próprio tiquetaque do relógio era suave como se tivesse receio de incomodar. E o senhor Jerónimo adormeceu tranquilo.


José de Lemos, Pequeninas Histórias de Amizade

Obs.: Texto seleccionado para a ficha de avaliação intermédia.Imagem retirada da net.

monge

Verdi - Traviata

DELICIOSO!

30.10.07

A propósito do vinho ...

"Deixai-me chorar mais e beber mais,

Perseguir doidamente os meus ideais,

E ter fé e sonhar - encher a alma."

Camilo Pessanha, in Caminho

monge

29.10.07

S. Leonardo da Galafura
Diga-se que não foi a melhor altura do dia para colher este momento, mas o miradouro de S. Leonardo da Galafura é, definitivamente, o local que maior deslumbre nos oferece sobre a paisagem duriense. O rio, lá ao fundo, parece que nos corre aos pés, descendo serenamente encostado às margens que se alongam e que, de solcalco em socalco se empinam até ao cimo da imponência dos montes, sempre na companhia de serpenteantes vinhedos.

"Barco de quilha para o ar, que a natureza voltara a meio do vale", este miradouro tantas vezes visitado por Miguel Torga, outras tantas lhe serviu de inspiração para com pena, ai lavar a sua alma.


Absolutamente belo!

monge

26.10.07

Sardines on carvon


Apesar de, definitivamente, ser um bom garfo, nada me dá mais prazer do que comer umas boas sardinhas assadas deitadas em cima duma fatia de pão, à mão. É a única maneira que encontro de saborear esse petisco: usar os dedos como pinça, e ir debicando um pedacinho de uma e um bocadinho do outro. Petisco sim, porque não trocava uma boa sardinhada pelo melhor manjar do mundo!
Sardinhada em que participe, não abdico do gozo antecipado de acender o lume, de estender as sardinhas sobre as brasas e de mansa e lentamente, deixar que repousem o tempo suficiente para que fiquem o mais deliciosas possível. E não me preocupa nada o cheiro implacável que fica impregnado, porque ele lá há-de sair.Sim, todo este processo tem truques! Mas também perdoa-se-lhes o mal que cheira pelo bem que nos sabe.
Abdico de outros pedaços que possam fazer parte do churrasco, e assim guardo o bandulho para aconchegar umas duas meias dúzias delas. Acompanhadas de uma fresca salada e de uma boa pinga de vinho, é tiro e queda.
Iniciada a ceifa pela altura dos Santos Populares deu-se por encerrado este ano o ciclo dessas patuscadas. Mas para o ano há mais e outro cardume cá virá parar. E na companhia do costume, será recuperado e sempre renovado o romantismo de outrora.
Há lá coisa melhor!
sardina pichardus - a sardinha previne alguns tipos de doenças cardiovasculares, por conter uma elevada quantidade de ácidos gordos essenciais do tipo ómega 3
monge

21.10.07

"This is England"
Drama - 1h40 - Reino Unido
Realizador: Shane Meadows
com: Thomas Turgoose, Stephen Graham, Jo Hartley, Andrew Shim

1983. Shaun, 12 anos, vive com a mãe numa cidade costeira do norte da Inglaterra. Rapaz solitário, começam as férias grandes quando encontra um grupo de skinhead do bairro. Com eles, Shaun descobre o mundo da festa, do primeiro amor e das botas Dr Martins. O tom muda quando Combo, um skinhead racista e mais velho, sai de prisão. Enquanto a banda provoca as populações estrangeiras locais, Shaun vai sofrer um ritual (de passagem) que o arrancará violentamente à infância.

Filme muito justo no que toca ao jogo (excelente) dos actores e edificante no que concerne a realidade histórica da Inglaterra dos anos 80. Década marcada pelo tatcherismo e a guerra das Maldivas. Situação social complexa e crise de identidade nacional propicia à emergência de grupos extremistas e xenófobos, tais que os skinhead.
O filme, ao mostrar a violência de que estes grupos são, no fundo, vitimas paradoxais, denuncia o absurdo do nacionalismo e da bandeira nacional, de que eles são porte estandadarte...

Pugnante e sensivel!
eremita

14.10.07


"Abdica, e sê rei de ti próprio" (Pessoa)
Quem me dera poder estar um dia inteiro, sentado a ver o mar! Sem fazer absolutamente nada. Estar ali, quieto, perante o desassossego lento do mar imenso. Ver as horas passar à minha frente e eu ali, sem pressas nem preferências. Em plena liberdade: colhendo sem escolher. No acto supremo de existir apenas. Rei do universo sem dono. De tudo quanto abarcassem os meus sentidos. O infinito à mão de semear. Deixar vir a noite, sem hora marcada. Pontual ao destino, sem tempo. Ver o mundo pela primeira vez. Sentir uma vaga melancolia inundar-me o peito e uma brisa alegre sacudir-me o rosto... Sentir a vida cumprimentar-me de longe e eu acenar ao fim da tarde com movimentos de alma ampla, cheia de gratidão. Sentir a cabeleira quebrar, como lenha seca, sob o vento norte, e a raiz do pensamento ficar mais forte: Capaz de resistir à erosão da vontade e à ilusão do desejo.
Quem me dera!...

eremita

11.10.07

"Senhor, eu me confesso do orgulho em que me afundo,
dia a dia,
da tua breve ausência do meu ser e de cada momento de poesia;
Senhor, eu me confesso do outro que eu escondo dentro de mim,
deste oculto desejo que me encerra em torre de marfim;
Senhor, eu me confesso da voz que me murmura e me vergasta,
da ânsia de subir sempre mais alto,
daquilo que não me basta;
Senhor eu me confesso das minhas mãos desertas de humildade,
das tuas orações repudiadas,
da negação da tua eternidade.
Porém Senhor, peço o teu perdão.
Vergada a fronte à luz do teu olhar
por todos os pecados cometidos
que não serei capaz de de Confessar"

(Mari Tereza G. Lizardo Neves)


eremita

9.10.07

A Memória das Pedras I

Acordar

Lembro-me de horas alegres.
Na procura constante,
vejo-me de mãos cheias de consciência
com os olhos fechados na dor,
à procura de harmonia.
Sinto na carne, as angústias da alma
como uma vela acesa ao luar.
Cânticos e orações que rezo,
de longe, para não ficar
com um sorriso meigo de criança,
que apregoa o esplendor,
que urge a esperança de viver,
mas que se torna real
com a vontade de chorar.
Então,
no desespero da manhã,
vejo no espelho, a contradição
dos pecados sofridos.
No entanto, vejo-Te.

monge

8.10.07

Livro meu, livro meu ...

Além da irresistível vontade de começar logo a lê-lo, a compra de um novo livro implica de imediato a escrita do nome, do local e da data de compra, assim como que , logo se arranje um marcador.

Aos pupilos é sempre sugerido que vão escrevendo este delicioso poema, não vá o Diabo ouvi-las:


Livro meu, muito amado,
Tesouro do meu saber,
Faça favor de o restituir
Quem houver de o achar,
Senão ao Inferno vá cair
Com a cabeça para o chão
E os pés para o ar
Até se afundir no caldeirão.
Aquilino Ribeiro, O Livro de Marianinha
monge

4.10.07

Vamos à caça

Caçador que se preze, jamais deixará de antecipar o gozo de pôr uma peça de caça à cinta.
No dia antes tudo é pressas: há que olear o bacamarte, verificar a cartucheira, combinar sítios e percursos, madrugar e estar no lugar marcado à hora certa.
E eis que, no conjunto de todas essas vontades, o amanhecer aparece, embrulhado pelo frenesi de toda a canzarrada, monte acima calcorreiam-se rudes penedias, mansos ribeiros e outros tantos lugares apetecidos.
Após latidos caninos, tiros errados e outros tantos acertados, o percurso de regresso faz-se de modo mais ameno, reconfortando os menos afortunados, porque todo o produto será compartilhado.
Chegado o fim do dia, mais não resta do que, apaziguar o corpo com um merecido (será?) descanso dos passos percorridos, dos sentimentos de vida abatidos, das ilusões inventadas.
Outro dia de caça virá, outros momentos serão escutados com tamanho apetite.
Amanhã, vamos à caça.


monge
P. S. .: Pormenor de azulejo retirado de uma casa senhorial lá da aldeia.

3.10.07

The Name of the Rose

TÍTULO DO FILME: O NOME DA ROSA (The Name of the Rose, ALE/FRA/ITA 1986)
DIRECÇÃO: Jean Jacques Annaud
ELENCO: Sean Conery, F. Murray Abraham, Cristian Slater. 130 min.

1.10.07

"Porquê o Nome da Rosa"

“Escrevi um romance porque me apeteceu. Acho que é uma razão suficiente para alguém se pôr a contar uma história. O homem é um animal fabulador por natureza.” ECO
Interrogado sobre algumas questões interpretativas do livro, o autor prontamente responde sem deixar de perceber que o que fez, fê-lo com enorme sentido de responsabilidade. Quando indagado do uso de “diálogos cinematográficos”, não se coibe de explicar que ele mesmo reconstituiu esses ditos diálogos de acordo com uma medição exaustiva da planta da abadia, o que se pode verificar no próprio filme. E quando o confrontam com facto de a matança do porco ser em Novembro, mês ainda pouco frio para tal faina, ele, logicamente, alega que, daí é que se deve o facto de localizar a abadia em ponto tão alto (são mais as abadias em pontos baixos). Além de que, o sangue era muito precioso para o enredo, para assim seguir os “passos” do Apocalipse.
Sobre o título desta obra, Humberto Eco diz que “um título deve confundir as pessoas e não orientá-las” não querendo assim que o próprio título constituísse desde logo uma chave interpretativa. Acrescenta ainda que, a ideia do Nome da Rosa lhe ocorreu por acaso, o que lhe agradou imenso devido ao facto de a rosa ser um figura tão simbólica, tão cheia de significados ao ponto de já quase não ter mais nenhum.
Inicialmente intitulado como a A Abadia do Delito, mesmo assim, este romance não realizaria o sonho do autor que seria intitular a obra como Adso de Melk, um título muito neutro já que Adso era também o narrador: “Os títulos que mais respeitam o leitor são os que se reduzem ao nome do herói”.
- O que mais vos aterroriza na Pureza? – pergunta Adso.
E Guilherme de Baskerville responde:
- A pressa.
Com profundos conhecimentos da época medieval Humberto Eco utiliza isso com uma habilidade enorme, desde a utilização dos conceitos à simbologia da época, conseguindo assim, uma reconstituição histórica da vida daquele mosteiro do século XIV. “Não é verdade, mas podia ser”.
Julgo que, até ao momento, o Nome da Rosa é daqueles filmes que melhor corresponde ao livro não defraudando, em quase nada, a interpretação do "eu" leitor. E agora, a leitura deste pequeno título de Humberto Eco "Porquê o Nome da Rosa", veio a ajudar a melhor perceber algumas questões que poderiam ter ficado soltas ou até nem se levantaram. Adorei!
Porquê o Nome da Rosa, ECO Humberto, Difel 1991.
monge

29.9.07

"4 meses, 3 semanas e 2 dias"
(4 luni; 3 saptamini si 2 zile)
Filme Romeno de Cristian Mungiu, palma d'ouro do festival de Cannes 2007.
1987, Roménia, alguns anos antes da queda do muro de Berlim.
Otilia e Gabita (actrizes principais) partilham um quarto numa residência universitária duma pequena cidade romena. Gabita está grávida e o aborto é um crime. As 2 jovens mulheres recorrem a um certo sr. bébé para resolver o problema. Mas não estavam preparadas paras a dura prova que vão ter que enfrentar.
Um filme soberbo, forte, que me fez lembrar "Goodbye Lenine" pela atmosfera e "os mutantes" de villaverde pela realidade dramática. A questão do aborto: tema até ainda bem pouco tempo tabu entre nós! Também uma alegoria, no dizer de alguns, do comunismo como capitulo abortado da história! Mas o filme ultrapassa de longe o levantamento de questões puramente politicas para se concentrar numa problemática recorrente e universal que concerne o valor da existência humana...
Simplesmente excelente!

Abraço
eremita

28.9.07

Ler é ...

Não há talvez dias da nossa infância que tenhamos tão intensamente vivido como aqueles que julgamos passar sem tê-los vivido, aqueles que passámos com um livro preferido
Marcel Proust

Um dia, um certo Pessoa cheio de Liberdade disse que " Ler é maçada, estudar é nada"(ou teria sido ao contrário?).
Talvez o tivesse dito sem intenção, ou se calhar por ter pensado que ninguém, jamais, leria o que ele escreveu. Pois eu digo que o senhor estava completamente enganado. Que outra forma teríamos de conhecer o mundo e o tempo que nele se vive? Qual a melhor forma de, em aparente solidão, construirmos tempos, espaços e maneiras de sentir? Simplesmente lendo!
Ao ler, aprendem-se "coisas", entra-se em contacto com a vida, com tudo o que nela acontece e do que ela é feita. Ao ler, entra-se numa viagem de fantasia, de contos e de lendas que ainda não se perderam na memória de gerações, que nos embalam e nos levam para recordações longínquas.
Convencido de todo este prazer que a leitura proporciona, ponho, sempre que posso, os meus alunos a ler, ou seja, tento promover o desejo de ler e de criar hábitos de leitura através da biblioteca de turma. E, assim, cheio de curiosidade, tenho-lhes perguntado o que significa para eles ler.
Ao que eles vão respondendo:
Ler é... fascinante, fantástico, importante, romântico, agradável, interessante; é prazer, magia, alegria, emoção, entusiasmo; é sonhar, inventar, imaginar, recordar...
Ler é... divertido; é poesia, curiosidade, aventura; é conhecer histórias, aprender, estudar, ter ideias, passar o tempo, pensar...
Estava ou não estava o senhor enganado? Digam lá, se vale ou não a pena ler e pedirmos aos livros que nos contem os segredos que têm guardado para nós? Claro que vale!
Vamos, então, descobrir por nós o que os livros têm para nos contar. Vamos ler! Ler é...fixe!
monge

27.9.07

Jazz em tempo de vindimas


Com o regresso das vindimas, o jazz volta a merecer lugar de destaque no Douro e em Trás-os-Montes, resultado da ligação estabelecida desde 2004 entre o Festival Internacional Douro Jazz e a região demarcada mais antiga do mundo. Aliando-se ao espírito festivo das vindimas, com uma estética musical apurada como os melhores vinhos, o festival procura marcar o calendário da região e do país com a ajuda de artistas de grande qualidade, alguns de renome internacional.
A edição de 2007 do Douro Jazz realiza-se em cinco localidades, estendendo-se um pouco por toda a geografia transmontano-duriense. Aos parceiros habituais (o Teatro de Vila Real, o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto e a Associação Chaves Viva), juntam-se este ano o Teatro Municipal de Bragança e o município duriense de São João da Pesqueira. São 37 concertos repartidos por cinco palcos.
Nesta quarta edição do festival, impõe-se destacar dois nomes míticos do jazz mundial: Donald Harrison e Billy Cobham.


monge

24.9.07

Alegres Madrugares







Nada melhor do que, logo pela manhã, satisfazer o desejo de revigorar o corpo e despertar o espírito!
O parque florestal desta cidade, é, nem mais nem menos, o melhor local para o fazer. Mesmo localizado no coração da urbe, consegue oferecer-nos um pouco da sua Natureza em paz e permite-nos ainda o aconchego de um rio companheiro e o chlirear catraio de abundante passarada.
O que se tem vindo a tornar uma rotina quase diária pelo final da tarde, o dia de hoje é o único que permite estas deambulações matinais, sem contudo não deixar de se ouvir sempre um estranho mas simpático "- Bom dia"!
Retemperada que está a alma, são horas de labutar.
monge

23.9.07

Livros com Bolos


Ler + … os livros dos outros.

Comunidades leitoras.Nada surge por acaso!

Aproveitando o lanço do Plano Nacional de Leitura, enquanto coordenador no ano anterior, agradou-nos a ideia de, entre o nosso departamento, lançar o desafio a todos os elementos de apontarem aquele livro, que de uma forma ou de outra tenha deixado marcas e assim, indicá-lo aos outros. Inicialmente, a ideia seria de afixar uma booklist onde constariam os nomes: do leitor; do livro e do autor. Lista esta que seria afixada e aberta a quem nela quisiesse apor a sua escolha.
A tudo isto se juntou uma sugestão feminina, dando a ideia de que, se aos livros juntássemos chá (hum ... de frutos silvestres!) e bolos teríamos um espaço à quinta-feira de “Livros com Bolos”. E assim ficou, agora já semanalmente e tudo a cargo do leitor. Anunciava-se o evento, faziam-se flyers com informações várias sobre o livro, o autor e outros pormenores interessantes e lá estávamos nós a volta da conversa dos livros. Estando na região do Douro, o tal vinho também marcava presença e desta maneira se aliou o rumor das palavras ao sabor da companhia dos bolos.
Ficaram alguns nomes e títulos sugeridos que se foram juntando na mesinha de cabeceira e de alguns dos quais, aqui daremos resumo.

Boas leituras.

monge

Marcel Marceau

«Para representar o vento temos de nos tornar uma tempestade. Para representar um peixe temos de nos atirar para o oceano».
Au revoir Marcel.

monge

21.9.07

Castelo de Bragança

Bragança é herdeira de do nome de uma basta região do Nordeste de Portugal, com vestígios que remontam aos períodos da Pré-História e da ocupação romana.
D. Sancho I, em 1187, concede-lhe o primeiro foral e, em 1464 recebe de D. Afonso V, o Foro de Cidade. A área da antiga cidade, onde é perceptível a sobreposição de várias épocas, forma um conjunto monumental, com destaque para a cidadela dotada de um sitema defensivo de muralhas que encerram autênticos tesouros arquitectónicos - a Domus Municipalis, a Torre de Menagem, Igreja de Santa Maria, o pelourinho, ...
Panorâmica da zona envolvente do castelo, vista de um miradouro do circuito turístico.


A cidadela.
A companhia do meu Pedro e da "minha" Inês.

Pormenor de muralha.Vista da Torre de Menagem e a Torre da Princesa, que encerra em si uma bela lenda.1Domus Municipalis - outro ex-libris de Bragança, monumento único da arquitectura românica civil na Peninsula Ibérica, do período tardo-medieval. A sua edificação, provavelmente, coincide com a do castelo, por volta do primeiro terço de quatrocentos. Torre de Menagem, Igreja de Santa Maria e Domus Municipalis.
Torre de Menagem, que alberga o Museu Militar.
Fachada da Igreja de Santa Maria.
1 - Para mais informações, consultar: http://www.cm-braganga.pt/ e http://www.bragancanet.pt/ .
E eis-nos cumprido o dever de atribuir o prémio, a quem, com a devida justiça o mereceu.
Aqui ficam então, algumas fotografias tiradas este Verão, de um dos mais belos castelos de Portugal.
monge

20.9.07

Viagem ... I

A andorinha acabara os seus preparativos de viagem.
Nervosa, ao pé dos seus filhos, aguardava as companheiras, porque a viagem era colectiva, e batia as asas como a querer certificar-se do seu bom funcionamento. A uma curta distância, um cisne permanecia silencioso, olhando para as águas que o sustinham. Nunca trocara palavra com ele, porque o cisne jamais levantara a cabeça para a fixar e também não podia perder o seu tempo a conversar com alguém que não lhe ligasse importância. Mas desta vez, enquanto esperava as companheiras, resolveu passar o tempo, dizer-lhe fosse o que fosse. E um pouco à toa principiou:
- Quer vir passear connosco?
- Não gosto de viajar.
- Por que razão meu amigo? Viajar encanta, instrui! Voar pelo azul! Vermos raças diferentes, países, outras paisagens! Venha daí, há-de gostar!
- Não insista, minha amiga.
- Quer dizer que não gosta de voar?
- Tenho bom senso, felizmente, das minhas necessidades.
E acrescentou sem se mexer:
- Quem viaja pouco adianta. Tudo está dentro de nós.



António Botto, Contos


Foi este delicioso texto que serviu de base à ficha de avaliação diagnóstica para os alunos de 5º ano na minha escola.
monge

16.9.07

Quebra-Cabeças

Descobrir, numa só palavra, o significado comum entre estas duas imagens:

Título original: LES PUTAINS DU DIABLE.(Último título pousado na mesinha de cabeceira).

Fotografia tirada em Agosto último, entre muralhas do castelo de Bragança, no contexto de uma actividade inserida nas festas da cidade.

O premiado será contemplado com um conjunto de fotos do magnífico castelo.
monge