31.10.07

Tranquilidade


Um homem muito rico recebeu, um dia, a visita de outro homem. Este vinha pedir-lhe auxilio e contou-lhe, nervosamente, amachucando o chapéu entre as mãos, as desgraças que lhe tinham acontecido. Se o senhor Jerónimo – era o nome do homem muito rico – quisesse, podia salvá-lo. De contrário, teria de vender a sua casa, as suas vacas, a sua terra. E a mulher e os filhos ficariam na miséria.
O senhor Jerónimo ouviu, contrariado, o que o homem lhe contava, e respondeu-lhe, de mau humor, que o não podia auxiliar.
O homem ficou-se, por momentos, de olhar vago e triste, olhando para o chão. Depois, agradeceu e saiu. E o senhor Jerónimo, à janela, viu-o caminhar curvado, pela estrada que ia dar ao monte onde o homem tinha a sua casa.
Nessa noite, deitado na sua cama, o senhor Jerónimo não conseguia dormir. Vinha-lhe ao pensamento o olhar triste do homem que lhe pedira auxílio, e, no silêncio da noite, até o tiquetaque do relógio parecia mais forte do que nas outras noites. Mal-humorado, o senhor Jerónimo murmurou:
- “Que tenho eu com as desgraças de cada um”?
Era como se respondesse ao tiquetaque do relógio, que parecia bater mais forte para o censurar.
Fora, o vento que se levantara fazia gemer tudo onde batia.
O senhor Jerónimo sentou-se na cama. Os ruídos em volta aumentavam, o tiquetaque do relógio parecia cada vez mais forte.
- Eu dou em doido! – disse o senhor Jerónimo.
Depois teve um pensamento. E como por encanto, os ruídos em volta serenaram e o tiquetaque do relógio parecia agora vir de longe. O senhor Jerónimo levantou-se e vestiu-se. E saiu. E seguiu a estrada que ia dar a casa do homem que lhe pedira auxilio. Bateu à porta. O homem abriu-a. E o senhor Jerónimo disse-lhe:
- Pode contar comigo.
E voltou para casa. Quando voltou a deitar-se, pôs-se à escuta. O vento, fora, serenara, já não batia nas coisas e todos os ruídos, em volta, se deixaram de ouvir. E o próprio tiquetaque do relógio era suave como se tivesse receio de incomodar. E o senhor Jerónimo adormeceu tranquilo.


José de Lemos, Pequeninas Histórias de Amizade

Obs.: Texto seleccionado para a ficha de avaliação intermédia.Imagem retirada da net.

monge

3 comentários:

monge e eremita disse...

Amigo monge,

Felicidade=Paz interior!

abraço tranquilo
eremita

avelaneiraflorida disse...

Amigo monge,

Que texto tão tranquilo!
"BRIGADOS" por esta partilha!!!!

Bjks

monge e eremita disse...

Amigo monge, a tranquilidade rima com segurança mas não com a da companhia de seguros mas a da companhia tout court. Ou seja, a da amizade, que rima com fidelidade mas também não a da outra concorrente seguradora! Seguramente menos corrente mas mais segura é a tranquilidade de espirito! Não tem valor, é gràtis, e no entanto...
A tranquilidade é um equilibrio em movimento, um desejo sem ambição, um interesse desinteressado, uma posse sem conquista, um sentimento sem pensamento, um dever sem obrigação, uma liberdade sem preço, uma paz sem condição; um oceano Pacifico!...

a-braços (a navegar...)
eremita