14.10.07


"Abdica, e sê rei de ti próprio" (Pessoa)
Quem me dera poder estar um dia inteiro, sentado a ver o mar! Sem fazer absolutamente nada. Estar ali, quieto, perante o desassossego lento do mar imenso. Ver as horas passar à minha frente e eu ali, sem pressas nem preferências. Em plena liberdade: colhendo sem escolher. No acto supremo de existir apenas. Rei do universo sem dono. De tudo quanto abarcassem os meus sentidos. O infinito à mão de semear. Deixar vir a noite, sem hora marcada. Pontual ao destino, sem tempo. Ver o mundo pela primeira vez. Sentir uma vaga melancolia inundar-me o peito e uma brisa alegre sacudir-me o rosto... Sentir a vida cumprimentar-me de longe e eu acenar ao fim da tarde com movimentos de alma ampla, cheia de gratidão. Sentir a cabeleira quebrar, como lenha seca, sob o vento norte, e a raiz do pensamento ficar mais forte: Capaz de resistir à erosão da vontade e à ilusão do desejo.
Quem me dera!...

eremita

7 comentários:

avelaneiraflorida disse...

Quem me dera...

Seríamos dois...
Acho que até a vida faria mais sentido depois de um acto destes!!!

Belíssima proposta!!!!!

Bjks

avelaneiraflorida disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Li Malheiro disse...

Olá.
O nada pode conter extraordináriamente tudo o que vai no espirito de quem preenche um momento, que pode parecer uma eternidade, ficando frente a frente, com o espaço, sem nada para fazer. "Camninhando" pelos prados infinitos do pensamento, meditando enquanto "ela" se move, pois ela move-se!
Apeteceu-me escrever isto, ao ler aquilo que é tão profundo que fez vir ao de cima esta necessidae de escrever.
Por aqui me fico.
Abraço com amizade.
Li Mlheiro

monge e eremita disse...

Olàl

"vou fazer-te(vos) uma confidência, talvez tenha jà começado a envelhecer e o desejo, esse cão, ladra-me agora menos à porta. Nunca precisei de frequentar curandeiros da alma para saber como são vastos os campos do delirio. Agora vou sentar-me no jardim, estou cansado, Setembro foi mês de venenosas claridades, mas esta noite, para mnha alegria, a terra vai arde comigo. Até ao fim."
("Vastos campos", Eugéneo de Andrade)

abraço
eremita

monge e eremita disse...

Olá amigo eremita

Embora não sinta forte apelo pelo mar, a ideia de estar um dia inteiro sentado, por si só, deverá ser um momento de uma intensidade retumbante e de um autêntica busca de presentes e passados, assim como uma grande oportunidade para nos encostarmos calmamente nesse sossego. E nessa mesma posição, aguardar também com ansiedade a chegada de tempos que não houve, de lugares não pisados, de sorrisos de alegria e outras letras de poesia.
Criava musgo! Sim, criava musgo.Contudo, não ficaria indeferente à marcha da madrugada e ao esquecimento de alguma rima errada. Talvez não seja um objectivo de vida mas um reflexo da essência da ternura.
Boas contemplações meu amigo!

Forte abraço

monge

Saúl disse...

O que me nais me convence é o verso que serve de títúlo... e que bom slogan seria para, os tão convencidos de si, que não têm lugar para ninguém.
Custa-me a abdicar, mais fácil se torna quando me é possível contemplar a grandeza e a beleza do Mundo que nos rodeia e assim esquecer a mesquinhez das vozes e dos discursos inchados.
Reduzo-me á minha singela existência e agradeço a sensibilidade de ainda poder abraçar todos e aquilo que me envolvem. Amo o Mundo, apenas ainda não encontrei o meu lugar!
Procurando...

monge e eremita disse...

...Boa procura amigo!...Temos a vida toda para procurar, mas para encontrar é preciso andar distraido!...Assim como o importante não é chegar mas partir!...

Boa sorte,
eremita