11.1.08

"PAX ROMANA"


A Pax Romana, expressão latina para designar "a paz romana", foi o longo período de relativa concórdia experimentado pelo Império Romano. Iniciou-se quando Augusto César, em 29 a.C., declarou o fim das guerras civis e durou até ao ano da morte de Marco aurélio, em 180 d.C.

A ESTE - Estação Teatral - companhia sedeada no Fundão, levou a cena esta peça, no Teatro de Vila Real, representando um pelotão de legionários romanos a recuperar das suas mazelas, depois de uma refrega com o inimigo.

Bem, devo dizer que o encantamento deste momento resultou muito bem, não pelo texto em si (falado num engraçado "latinês") mas sim pela expressão corporal, pelo trabalho gestual, pela pantomima, valorizando sobremaneira o processo criativo dos actores, tornando-os capazes de cativar os sentidos do espectador. Muito bom!

monge

10.1.08

A Memória das Pedras

Vontade

Que bom seria ser feliz!
Cortar o tédio pela raíz.
Embarcar nas memórias da saudade
partir sem destino marcado
regressar sempre a algum lado
e acreditar em todas as verdades.
Pudera ser eternamente assim!
Mesmo não sabendo de mim
não esqueço que trago comigo
sombras de um passado antigo.
Mas o vento bate devagar
empurrando com um surdo olhar
a vontade de viver.

monge

7.1.08

Alegria


" o ser humano que não sente alegria naquilo que faz não pode esperar que a consiga transmitir àqueles que o vêem"

Brecht

monge

6.1.08

Vamos cantar as Janeiras ...


Encontro de cantadores de Janeiras

Grande Auditório do Teatro de Vila Real. 5 de Janeiro 2008/21h00

Valeu a rusticidade dos trajes, a jovialidade dos cantadores e o enorme calor humano que se sentiu naquela sala, aplaudindo efusivamente em prol da defesa e divulgação da Cultura Popular.

Guardo ainda da minha meninice, as rondas que também fazia neste dia pelas frias e alegres ruas da minha aldeia, acompanhando o grupo de cantadores que ia enchusmando à medida que decorria a ronda. O que na altura caía no saco, era o consolo de uma mão-cheia de figos, castanhas ou nozes, ou então uma peça do ainda fresco fumeiro e por vezes algum dinheiro.

Desde ai, já só me lembro, mais recentemente, de aparecerem uns catraios à espera de "algo" ou de alguma moedita, porque outra coisa não mereciam, visto que a sua presença só se anunciava por um denunciador bater na porta e um seco: " -Dê-nos as Janeiras!".

Quem me dera reproduzir aqui, algumas das quadras usadas em tais cantorias, mas a memória já me atraiçoa e de nada adiantariam os salpicos de uns poucos versos despernados. Talvez para o ano. Até lá.

monge

5.1.08

FAN


FAN — Festival de Ano Novo - música séria para gente divertida
Edição 2008

Para dar uma espreitadela: www.festivaldeanonovo.com .

No folheto, poder-se-ão ainda encontrar algumas informações adiocionais tais como: mapas, restaurantes e hotéis, de Bragança, Chaves e Vila Real.

monge

4.1.08

B(logo), existo ...


Quando respondemos em inquéritos, quais são os nossos hobbies, vejo-me sempre a responder as mesmas coisas: literatura; cinema; música e viagens (e estranhamente, viver).

Quando surgiu a decisão de criar este blog, mais não foi do que fazê-lo com um sentimento de partilha. Passado meio ano da sua existência, poderá ser altura de fazer um balancete e concluir que, a única coisa que lamento é não ter tido tempo para partilhar mais daqueles momentos.

Não se pense (embora se diga) que isto soa a qualquer tipo de vaidade ou exibicionismo. Errado! Se se tornou um espaço (muito) pessoal? Certo! Julgo que todos os blogs o são! Mas, só com a intenção de que, essa individualidade se transformasse em comunhão. Se li, se vi, se ouvi, se fui e se vivi, soa-me estranho o emprego de outra forma verbal que não seja a que reflecte a pessoa que fala, o agente da acção.

No entanto, na sua génese, este espaço pressupunha a presença de um nós: monge e eremita (pessoa com quem partilhei grandes momentos da minha vida, muitos serões de poesia e outras tantas loucuras sãs!, e que no espaço de vinte anos, só tomamos um fugaz café, numa soalheira tarde outonal) . Por isso, a vontade de blogar com o eremita foi crescendo, com a ideia de ouvir e saborear palavras sentidas para tentar (re)fazer a (re)construção de momentos perdidos de uma existência comum. Vejo agora que, em toda a congeminação deste espaço, o eremita, sem ser tido nem achado, boamente se prontificou também a partilhar alguns dos seus momentos tendo em vista talvez o mesmo objectivo. Grato, meu bom amigo!

Agora, quanto a todos aqueles que visitam este canto, são uma agradável companhia, serão sempre escutados e nunca ficarão sem uma palavra de volta.

Seja bem-vindo quem vier por bem!

monge

1.1.08

Ecce homo


Sem sono!



Ideias para um post: ecce homo.



Embora este chão de terra seja o mesmo, é preciso a sua renovação constante; estrumá-lo com todos os momentos que nos oferecem e revirá-lo para que outras memórias possam respirar.

Então, mergulhemos o braço audaz com vigor no saco e que venha a mão cheia de outras sementes anunciadoras de boas colheitas.

De cada vez que, qualquer data se aproxima, muitas vezes tenho pensado que é chegada a altura de dar novo rumo às coisas. Mas, foram já tantas as datas e tantas as coisas prometidas ao longo do tempo que, julgo ter-me esquecido de tudo o que foi prometido.

Não é por falta de vontade nem por falta de coragem, simplesmente, os dias vão passando e o significado que outrora se afigurava como fruto, paulativamente, vai-se diluindo e enrolando em outros motivos.

Tenho pensado, seriamente, em fundar a "seita do dia anunciado"para assim, encarar as coisas como definitivas.Qual quê!? Puro engano!Nada é definitivo .Tudo é tão inconstante!

Seja como for ,o início de cada ano pode servir como um marco ou sinal de viragem.Pois, mas o tempo passa e também nós passamos a vida atrás do tempo.

Olharmos para o passado é a pior forma de envelhecermos, antes termos de rejuvenescer no futuro, o lugar onde podemos encontrar alguma felicidade.

Precisamos de olhar para as coisas e vê-las dentro de nós.Sim, porque tudo temos dentro de nós.

A verdade só existe se acrteditarmos nela; a poesia só tem significado se as palavras nos tocarem a alma; a vida só é é real se a consegirmos viver...e por aí adiante!
monge

19.12.07

O Garrinchas

"De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis por se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste oficio, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim...
Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse doutra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas.
Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe em cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam.
Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra dum borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam.
O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas.
Quando foi a dar conta, passava das quatro. E, como anoitecia cedo, não havia outro remédio sento ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante.
E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer?
Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-lhe lá.
E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...
Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!
Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.
Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.
Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois dum clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos, é que não.
Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao Céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe.
- Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também.
Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia.Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila!Na altura da romaria que arranjassem um novo.
Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de se cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.
- É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
- Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia dum patriarca. - A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José"
Miguel Torga
Novos Contos da Montanha

- PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE -
monge

8.12.07

Sexta-feira GRANDE

Ontem, foi assim ...

Programa (manhã)
- Sessão de abertura ... blá...blá...blá
- Apresentação da obra : "Património Imaterial do Douro: Narrações Orais" (Contos, Mitos e Lendas) Vol.I - Alexandre Parafita;
- Pausa para café (com produtos da terra ... divino);
- Palestra "Paisagem, Memória e Esquecimento" Joaquim Pais de Brito.
Magnifico - alguns resquícios:
" ... a paisagem resulta do nosso olhar, da nossa presença lá. A maneira como se olha é uma construção do olhar, dependente de nós e dela própria."
" ... a escrita cria imagens ... e temos de encontrar um cenário daquilo que estamos a ler"
" ... as memórias são construções sociais que organizam um conjunto de sinais e marcam um tempo enquanto narrativa, na qual existimos."
" ... às vezes os conflitos resolvem-se, esquecendo-os."
" ... os indivíduos precisam de marcar os lugares de que fazem parte."







Ala que se faz tarde

V Ciclo de Estudos de Miguel Torga:

"Contextualização sócio-económica da Região na obra de Miguel Torga, a evolução actual e a preparação para o contexto futuro"
Arquivo Distrital de Vila Real - 14:30

As comunicações apresentadas debruçaram-se somente sobre: "Cenários para 2030: Implicações para a região do Douro" e "Breves apontamentos sobre o Plano do Desenvolvimento Turístico do Vale do Douro" e "Breves apontamentos sobre o Plano do Desenvolvimento Turístico do vale do Douro".
Cenário pouco agradável. Neste ciclo faltou um dos comunicadores com "Torga e o Reino Maravilhoso - o abraço da Literatura a uma Economia em mudança". Talvez o que iria dizer alguma coisa sobre Torga.

Àrvore de Natal - discussão com o Pedro sobre se iamos armar ou montar a árvore de Natal. Decidimos que montar ficava melhor.

Pela noite ...




































Liberdade é um exercício difícil. Se houvesse possibilidade de salvar o mundo seria através da Poesia.

Miguel Torga.

basta uma porta de luz
para incendiar o poema
assim a urze do teu olhar
me entre na boca

António Cabral
monge

6.12.07

PortuGalizar

Antes de tudo, não se pretende aqui postar um artigo de opinião em que, o título associado à imagem possa trazer interpretações erróneas.
Pretende-se sim, encerrar este curto mas enriquecedor percurso cultural galego, dando relevo a uma interessante personalidade que também fez parte de todo o roteiro: Isaac Estraviz. Este professor Titular da Universidade de Vigo no campus de Ourense, na área da Didáctica da Língua e Literatura, possui três licenciaturas e um doutoramento em Filologia Galega é um acérrimo defensor do galego-português alegando para isso que, o castelhano, na Galiza, é um idioma intruso.
Este linguista, lexicólogo e "dicionarista" tem vindo a incidir a sua investigação tanto no território galego, como no território português, chegando à conclusão que muitos dos vocábulos são comuns a ambas as línguas, as quais, segundo deu a entender, lhe parece que o galego seja um português da Galiza, mais ou menos mesclado de castelhano.
Consciente das dificuldades que a língua galego-portuguesa enfrenta, Isaac Estraviz pretende editar o seu dicionário "de nove quilos" (por agora só Dicionário e-Estraviz) não desistindo por isso do seu contencioso com Madrid, que ao longo dos tempos parece ter vindo a pretender a aniquilar o português da língua galega.
Estas foram algumas das poucas impressões que nos ficaram deste persistente professor, do qual, agora, lamentamos não ter partilhado mais da sua companhia e erudição.
Ainda assim, sugere-se um saltinho aos principais movimentos que, na Galiza, lutam pela "independência" da sua língua em relação à "dominação castelhana":
MDL - Movimento da Defesa da Língua (http://www.mdl-gz.org/);
Agal - Associação Galega da Língua (http://www.agal-gz.org/);
Associação de Amizade Galiza-Portugal (http://www.lusografia.org/).

Obs.: Note-se que o "grafitti" da imagem está escrito em português, muito diferente do que seria se estivesse escrito em castelhano : Galicia no es España.

P.S.: Quando perguntei ao professor o que ele achava do facto de, nós portugueses, pretensiosos poliglotas, fazermos desmesurados esforços para tentar falar espanhol, redondamente respondeu ser isso um absoluto absurdo porque, a língua é a nossa identidade. Mais nada!

Mesmo no fecho deste post, demos um salto ao site da Agal e ainda hoje, constatamos: Pessoas de diferentes colectivos galegos constituem a Associação Pró-Academia Galega da Língua Portuguesa.

3.12.07

Anxo Rei

As palmas até poderiam ser estas!
Agora, a bola de carne, o pão cozido no forno ali ao lado, a chouriça assada, as castanhas assadas e um deslumbrante licor de café, tudo isto numa taverna com Anxo Rei a interpretar as músicas do seu álbum, tornou o serão inesquecível.

monge

30.11.07


Paraíso da Palabra

A palabra é celme da existencia, flor da auga do manancial da vida, foula que acariña o alento e nos enche a casa de gabanzas.

Se vestimos de silêncio a voz morrinã, morrerá a emoción, o sentimento, pois será sentido de distinta forma e distintas serán as personas faladoras.

Se orbalho ou orbalheira abandonan os nosos beizos, deixará de orbalhar na nosa terra, nas cabezas, nas entranãs, para pasar a ser simplesmente outra forma de chover, algo mais maina.

De secarem os loureiros gloriosos e os sagrados sabugueiros ateigados de sanxoáns, perderá unha fatia o arco da vella e ficaremos sen remedios para a doenza.

Como saberemos dos rios de auga pura e clara onde moran as bogas e as xanas, se deixan de medrar longos amieiros?

Onde procuraremos o acougo da sombra fresca se tronzamos os carballos?

Se as rolas deixan de cantar nas polas enramadas, como habemos arrolar as noites da desconsolada infancia?

Coa desaparición da brétema, que enfeita encostas e valgadas, marcharán e o misterio a terras afastadas.

A luarada sementa luz en branãs e varcias, cavorcos e chairas, e pinta de prata as gavelas de toxos, xestas e carqueixas.

A raxeira do sol trae rechouchíos de lavercas que non paran de peneirar nubes e ventos até a chegada do solpor.

Se esquecemos o pequeno e festeiro rairo, quen alegrará as tardes das mil pozas de oucas e rabazas, de auga mansa?

Se lhes pomos lume ás seras de pan, onde aniñarán os fugaces paspallás?

Con que van enredar as mans cativas se non hai estraloques nen cichotes?

Como animaremos os caminõs de lama dos arrieiros sen asubíos, sen esgutíos?

Como van falar de amor os namorados sen amoras, sen morangos encarnados?

Se ocultamos as xoaniñas e as borboletas, como imos ver as cores do espírito da fala?

Se deixamos que morran as palabras herdadas, alfaias de tempo e son coas que campa a alma, estamos condenados. Seremos olladas embazadas, mentes atoldadas. Mar de bágoas alagará a luzada.

por Delfin Caseiro

É com este magnífico texto que Delfin Caseiro, outro autor de Límia e incansável cicerone de toda a jornada, abre a modos de prefácio o álbum de Anxo Rei, todo ele musicado com letras do poeta Antón Tovar. Muito bom!

monge

28.11.07

Morte


Entranãrei as cinsas no teu ventre, o enigma azul dun crisantemo, a bágoa vella dunha palabra, a música triste do meu canto, ese labio abismo que te afirma.

Serei remol de lume vivo, vella serpe de pan e linõ, fariña munda, oceánica esperanza, un laio de estirpe a zoar polas gándaras, un desexo de lúas na razón última do universo.

Viverei ainda as paisaxes antigas, o tempo fluvial dos salgueiros, a eufonía anfibia dos versos, o goce azul dos horizontes, o destino infinito dunha nostalxia.

Contarei na primavera os séculos, o tránsito paseninõ das agonias, as metáforas ocultas da incerteza, as consagracións intimas do solpor.

E gardarei as horas no silencio para que a noite só sexa signo e caricia, para que no teu libro de auga apalpe a palabra carnal, a idolatría.
Antón Riveiro Coello, Limaiaé

Sem pretender ser escrito em verso, julgo que foi o livro mais poético que até agora li!
Antón Riveiro Coello, juntamente com o ilustrador, um mexicano Manolo Figueiras, também eles nos acompanharam peregrinamente em todo o roteiro, no dia dedicado a este autor. A poesia, a narrativa e a literatura de viagens, são géneros que Antón Riveiro Coello tem cultivado numa obra reconhecida já com múltiplos galardões. É autor, entre outros livros, de A quinta Saler, As rulas de Bakunin, Cartafol do Barbanza e A esfinge de Amaranto.
Limaiaé tenta aprofundar, desde a fusão poética das palavras e as imagens justapostas, na procura insondável das lembranças e as sensações longinquas. mas não perdidas. É um exercício de comunhão com a terra. Uma verdadeira geografia da alma.
monge

27.11.07

Espazos literários da Limia

Os espaços literários de Limia, organizados pela Consellería de Cultura da Galiza e a Delegação da Cultura do Norte, visou conhecer o património cultural limiano (Xinzo de Limia) onde participaram meia centena de várias personalidades vinculadas à cultura galega e portuguesa. Como elemento da redacção do jornal lá da escola, também fomos bafejados com um convite e toca então de fazer o saco para esta expectante jornada.
O que levamos? Por mim, rebentava de curiosidade em ir conhecer aspectos da vida desta personalidade contemporânea e amiga de Torga, com um percurso de vida simples e fascinante.
Com um magnífico naipe de anfitriões, desde escritores, um arquitecto, um ilustrador, um fabuloso contador de histórias, lá fomos percorrendo os cantos que foram servindo de inspiração ao poeta. Então, ficamos ali convencidos que, "qualquer lugar é um espaço literário" porque ouvir poesia, magnificamente declamada, à sombra de carvalhos, no meio de extensíssimas veigas, no alto de uma torre, num claustro de um mosteiro, cantada numa taberna e mesmo na casa do autor (que mantém todos os objectos no sítio desde a sua morte), garanto que é qualquer coisa de transcendente!
O que trouxemos? O moleskine a transbordar e os ouvidos prenhes de palavras e boas amizades galegas e com enorme vontade de lá voltar para calmamente percorrer de novo todos aqueles espaços. Magnífico!!!

LEMBRANZAS

Lémbrome que lembraba unhas lembranzas
que foron un pasado que non teño
En desmemoria habito, fun, non veño
máis que de altos olvidos e inquedanzas

Coido que fun feliz cando era neno,
mais nada sei do alén, rosa de lama,
se cadra anda comigo ó pé da cama
na que me deito e fuxo. Hai un aceno

mortuorio, non penso, calo en sonõs
as desmemorias bulen fuxitivas
e eu non busco memorias nos ensoños

Aprendín a morrer, ó neno olvido,
il ven tódalas noites, mortes vivas,
sen traguer as lembranzas que non pido.

(Antón Tovar, Cadáver adiado, 2001)
monge

18.11.07

Terra Firme

PRIMEIRO ACTO

Cozinha de casa de lavoura. Lareira, mesa, louceiro, preguiçeiro e bancos pequenos. Porta à esquerda para o pátio, de que se vê parte. Outra á direita, que comunica com o interior da casa. Quando o pano sobe, estão quatro pessoas em cena, dois homens e duas mulheres, sentadas à lareira, a conversar. Uma das mulheres faz meia. Luar lá fora.

CENA I

TIO ANTÓNIO
(erguendo-se)

Pois não vendo, não. Lá que te fazia arranjo, concordo. Mas não vendo. É onde semeio as batatas no cedo, tem a costeira que dá mato, fica-me ali à mão...

TIO JOAQUIM
(erguendo-se também)

Não estejas a desconversar! Fala-me com a franqueza com que te falo! Então as Bajancas ficam-te à mão? Diz que não te interessa o negócio, e acabou-se. Agora que a leira te fica à mão !... Nos calcanhares do mundo! A bem dizer no termo do povo! A mim convinha-me, por ter o migalho ao pé ... Juntava tudo ...

TIO ANTÒNIO
(irónico)

Por esse andar, também eu te podia comprar o teu bocado e aumentar o meu ... Se é para juntar ...

TIA GUILERMINA

Eu, terras ... estou mais farta ... por minha vontade, fazia-se a escritura amanhã ...

TIO ANTÓNIO
(irritado)

Pois se é da tua vontade, não é da minha! Enquanto eu viver, não largo um palmo a ninguém.

Foi este belo texto de Miguel Torga que, ontem, o grupo Filandorra do Nordeste levou a cena no magnífico teatro de Vila Real. Apesar de uma tão fria noite, foram momentos aconchegantes que se passaram ali, junto do lar daquela família transmontana, imaginado-nos sentados no escano com enorme vontade de ali estar. Mal chegamos a casa, entusiasmadíssimo, o Pedro quase que suplicou:
- Pá, quero ler o livro. ( ... e já o leva meio vindimado!)

Obs.: A peça "Terra Firme", drama em três actos, foi a obra escolhida pelo Filandorra para assinalar o centenário do nascimento de Miguel Torga, cuja estreia ocorreu na terra natal do escritor e percorreu 11 concelhos da região do Douro ao longo do ano. "Terra Firme" conta a história de Ti António, um velho camponês agarrado à terra, que sofre e desespera por o filho ter escolhido a vida de marinheiro e andar, há 20 anos, no mar alto, sem jamais ter voltado à terra natal.
monge

16.11.07

CONTOS DO NASCER DA TERRA
"Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como uma baloa.Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário em todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
—Pai!
Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez."

Já tinha lido sobre Mia Couto, mas nunca tinha lido Mia Couto. E, simplesmente, fiquei encantado. Bem que me avisaram quando me ofereceram o livro: - olha que é um autor com uma linguagem muito fértil; um inventor de palavras e de termos. E realmente, ao longo da leitura, os seus neologismos não cessam de nos surpreender, se não vejamos: ... letrinhei, ... desentretanto; ... devagaroso; ... tudo irresultou; ... ela se tinha imensado. Ou então expressões: ... metida em vara de sete camisas, ... promete mundos sem fundos ... às duas por muitas, ... tudo a pratos lavados, ... .

O que não me disseram foi que, parece ser um autor que se preocupa em interpretar a verdadeira natureza das coisas, para as quais consegue arranjar definições de original beleza.

"Necessitamos não do nascer do Sol. Carecemos do nascer da Terra."

Em todo o mundo, os pobres têm essa estranha mania de morrerem cedo”.
"A sede se inventa é para a miragem das águas."
"O futuro é um país que não se pode visitar."
"Nem tudo se explica, para que se compreenda melhor. Para ver a gente necessita transparência, mas se tudo fosse transparente todos seríamos cegos."
"A vida não tem metades é sempre inteira."
"... a morte é o fim sem finalidade."
"Eu quero a paz de pertencer a um só lugar, a tranquilidade de não dividir memórias. Ser todo de uma vida."
"A memória ... me faz crescer cheiros nos olhos."
"Os boatos viajam à velocidade do escuro."
"Se acredito, eu? Sei lá. Minha crença é um pássaro. Sou crente só em chuva que cai e esvai sem deixar prova."
"Careço de um lugar para esperar, sem tempo, sem mim."
"A punição do sonho é aquela que mais dói."
"O que o homem tem do pássaro é inveja. Saudade é o que o peixe sente da nuvem."
"Uma criança é um homem que se dá licença de voar."
"O cansaço é um modo do corpo ensinar a cabeça."
"A vida é um por enquanto no que há-de vir."
"Ingrata é a morte que não agradece a ninguém."
"Na Natureza ninguém se perde, tudo inventa outra forma."
"A água corre com saudade do que nunca teve: o total, imenso mar."
"A tristeza é uma janela que se abre nas traseiras do mundo."
"Abrigo maior não encontrei senão nas paragens da memória."
"Não há medo maior que não se entender humana a voz de outra humana pessoa."


E foi assim.

monge

15.11.07

O verdadeiro segredo ... ser feliz.



Posso ter defeitos, ficar ansioso e ficar irritado algumas vezes
Mas não esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo.
E posso evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios,
incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.

É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um "não".
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo ...
Fernando Pessoa

monge

14.11.07

«The Secret»



Fala-se por aí, à boca cheia, deste título e de todo o sucesso que tem feito por esse mundo fora. Ao que parece, surge como uma nova teoria de auto-ajuda onde é revelado que, sozinhos, podemos mudar tudo o que quisermos na nossa vida, isto desde que, consigamos controlar e aprender a usar a Lei da Atracção. Segundo dizem, trata-se de uma lei natural em que, nós conseguimos atrair tudo aquilo que pensamos, seja positivo ou negativo, e, assim sendo, poderemos adquirir o poder de modificar o que nos desagrada na nossa vida.

Até que pode ser. Fiquei curioso!



monge

10.11.07

Os Fantasmas de Goya

Como isto dos posts é como as cerejas, por estes dias, caiu-nos no colo (e no goto) este título que também versa (a apaixonante) temática da Inquisição.

Não nos pareceu, um filme só sobre Goya, mas sim um retrato da Espanha nos finais do Séc. XVIII, ainda subjugada pelo intolerante e impiedoso espectro do Santo Ofício e pelo entrecuzar das invasões napoleónicas e os ideiais revolucionários.
Além de uma excelente fotografia, revela-nos também magníficas e sóbrias interpretações. Vale a pena!

monge

9.11.07

Mais vale tarde do que nunca!


Porque um desafio é sempre um desafio, e, não sendo homem de lhe virar as costas, finalmente, após prolongada convalescença gripal, é tempo de aceitar o repto lançado pela amiga avelaneiraflorida (cantares de amigo). Então, de acordo com as regras que se seguem, a resposta aqui vai.

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs;
7ª) Divulgar o nome do livro e do autor.

"O tratado sobre a autoridade secular de Lutero separa claramente o reino de Deus e do mundo, onde a obediência deve ser absoluta mesmo que a ordem seja injusta".
Armelle Le Bras-Chopard, As Putas do Diabo. Circulo de Leitores, 2007.

Abstract:

"Entre os séculos XV e XVII, os processos de bruxaria conduzem à fogueira sobretudo mulheres, que representam oitenta por cento das condenações. Os tratados de demonologia, escritos por teólogos, inquisidores ou magistrados a partir de confissões obtidas sob tortura, descrevem as práticas a que as bruxas se entregam, desde a cópula com Satanás para obterem os seus poderes maléficos, ao roubo de crianças recém-nascidas a fim de serem comidas ou transformadas em unguentos ...
Porém, para a autora, a feminilidade e o perigo que ela representa foram o verdadeiro móbil desta perseguição. Um fenómeno mais político do que religioso, que levou à cosntrução no masculino do Estado moderno, e que desapareceria apenas quando as bruxas deixaram de ser necessárias, ou seja, quando as mulheres foram colocadas sob "tutela", o que as tornava menos perigosas.
Contudo, hoje, que as mulheres ocupam um lugar cada vez maior no espaço público, não se irá a assistir ao regresso das bruxas?"

Obs.: «As Putas do Diabo», era o nome com que Lutero designava as bruxas do seu tempo por terem supostamente relações sexuais com o demónio.

"A tolerância é sempre um indício de que um poder é visto como seguro; quando se sente em perigo, nasce sempre a pretensão de ser absoluto; nasce, portanto, a falsidade, o direito divino do seu privilégio, a inquisição."

M. Frisch

Nota: O título divulgado foi o segundo a ser "pescado", em virtude do primeiro, não ter as páginas necessárias ("História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar" - Luis Sepúlveda).

monge