25.7.07

BOA ONDA, MONGE!...
Pois é: enquanto uns (sortudos) vão a banhos, outros (penitentes como eu) ficam por
..., a secar, a boiar em pensamentos vagos, à espera doutra maré, cheia de vontade!... Ah, Oceano salgado! Lago imenso! "Enorme chão d'água" que me cercas - de saudade e liberdade!...Vem-me buscar!...
a-braços,
eremita

24.7.07

Vamos a banhos!

" As Banhistas" - Almada Negreiros

Vamos lá ver: livros, estão; portátil, está; mp3, está; dvd’s, estão. Ok, podemos partir então.
Todos sabemos que quando vamos de viagem, há sempre algo que fica para trás e pior do que isso, só nos lembramos quando já estamos demasiado longe! Tendo consciência que esta cabecinha já não se parece nada com o que era, toca de fazer uma lista com tudo o necessário que nos possa proporcionar algum conforto e bem estar, mas sempre alertando: “Temos que ser comedidos”! E temos sido, não gosto de viajar com o carro atafulhado, quero ter sempre os ângulos de visão disponíveis para me sentir mais seguro e assim poder chegar melhor a bom porto.

E pronto lá vamos nós a banhos. O descanso e sossego vou ter que procurá-lo à noite, na solidão e no rumorejar do mar e na companhia do que levo na bagagem, porque durante o dia vou ter que estar d’olho em dois coelhitos Duracel. Para dizer a verdade, nesta fase, não me fascinam muito as férias no mar, isto porque o que nos poderia trazer de descanso e prazer o facto de estar estiraçado na areia, transforma-se numa autêntica função de faroleiro para controlar a prole. Mas sabe bem , por um pouco, abandonar estes montes e ir encher o peito de maresia.
Assim sendo, até breve e que na volta venham mais algumas memórias.

monge

23.7.07

Falemos de musica

Duas notas musicais: Térez Moncalm!
Descobri tempos na net, na radio in line "fip"
(
http://www.radiofrance.fr/chaines/fip/accueil/), que ouço regularmente, esta cantora de Jazz/Blues canadiana (Montréal) que merece publicidade. Para quem gosta de blues, de vozes femininas com personalidade, de sons acústicos com carácter e de interpretações originais, então, pode ser uma dica...
Sem pretensões, Moncalm arrasta-nos suavemente para um universo sonoro muito especial, feito de solidão e de reencontros. Revisita alguns clássicos, numa versão muito pessoal. O timbre de voz é muito agradável e por vezes excitantes. Voodoo, o titulo do álbum (em homenagem a J. Hendrix) é uma transe sonora..., um feitiço musical..., para espíritos fortes e inquietos!...
Térez Moncalm, a ouvir com calma e sem tabus...
Abraço musical
eremita

22.7.07

As Pequenas Memórias

Ao percorrer todas as minhas leituras “saramaguianas”: Levantado do Chão; Memorial do Convento; A Jangada de Pedra; O Evangelho Segundo Jesus Cristo; Ensaio sobre a Cegueira e tendo em lista de espera Todos os Nomes e A Caverna, concluí que a leitura d’As Pequenas Memórias deu-me um especial prazer.
Além de sempre ter tido alguma curiosidade por biografias, estas pequenas memórias do nosso Nobel, curiosamente, fizeram-me recordar alguns longínquos e ternurentos momentos da minha infância. Embora oriundos de realidades geográficas bastante diferentes, alturas houve em que consegui identificar uma ou outra vivência campestre, rodeada de todas as emoções envolventes que isso implica.
De leitura fácil, ficamos até agradavelmente surpreendidos com alguma humildade do autor, sem receios em assumir a sua rústica meninice: "Queria que os leitores soubessem de onde saiu o homem que sou". (José Saramago)

Todos nós ajeitamos nos nossos alforges, lembranças que nos permitem reconstruir momentos passados, mas conseguiremos nós transmiti-los de uma maneira tão breve e clara conforme tenham acontecido? Não nos deixaremos tomar por uma certa afectividade e carinho para que o tempo, esse eterno carrasco, não nos volte a separar o corpo da alma? Não sei.
Porventura, julgo que nos agrada ter memórias porque sabemos que temos em nós o sentimento de destino, o qual, às vezes, nos parece ser como subir um rio sem remos. E talvez seja ai que, nos assaltam recordações de ecos vazios, lógicas sem sentido, sonhos abafados e segredos de coisas obscuras.
Tudo isto também trago dentro de mim, não albergo só memórias de instantes jovens e bons.
monge
Saramago, José: As Pequenas Memórias, Círculo de Leitores, 2007.

20.7.07

Pedras: que moca!

Xisto: X vezes isto, ou seja, esta paisagem Transmontana...

Depois da lógica da batata, a lógica do "calhao". Terão as pedras alma? Devem ter, se julgo pela impressão que colocam na minha: Sentimento de paz que a sua quietude imprime à passagem fugaz do tempo. Gosto de considerá-las e alheado nelas, sentir a profundidade da superfície das coisas banais. Gosto dessa evidência palpável do mistério. A vertigem do silêncio. O precipício da ilusão. Chão de certezas ocultas. Promessas prenhes de verdades absolutas. Linguagem dos signos. Destinos fossilizados. Gritos de luz arrefecidos. Estrelas caídas. Alfabetos, para soletrar o mundo com a gramática dos sentidos..."eu hei-de amar uma pedra"! (António Lobo Antunes)
Pétreo abraço
Eremita

19.7.07

Anaísa

O Nascimento de Vénus - Botticelli

“ – Já nasceu a Anaísa”.
“ – Então não era só amanhã?!”
Não, a minha sobrinha, mortinha por nascer, decidiu antecipar a sua chegada e resolveu aparecer para nos agradar a todos. Absolutamente bom!
Pondo de parte todas as probabilidades que entram em cena na concepção, só nos apercebemos de todo o resultado quando vemos e temos nos braços manifestações de uma vida acabada de sair do confortável e corajoso útero materno. Senti no peito a alegria bater e de repente assumimos que é este o fluir da natureza humana e seriam precisos inúmeros adjectivos para qualificar tamanha maravilha.
A vida é um verdadeiro milagre. A vida sorriu!
Bem-vinda a este lugar estranho, Anaísa.
monge

17.7.07

A Memória das Pedras



A vida é um lugar estranho.

Não é assim tão complicado
nem difícil de perceber.
Seria bom atravessarmos o futuro
e deitarmo-nos ao comprido
nas memórias do passado.
No entanto, a sede de viver
é tanta, e tanta, assim
como a força de seguir
os caminhos em movimento.
E seguindo sempre
o mesmo sentido,
deixamos crescer no peito
a vontade de inventar
maneiras de ser feliz.
De repente, a vida acontece
e pouco importa o que parece.

monge

Obs: Por lapso, não assinei esta foto. As fotos a editar, posteriormente, nesta rúbrica, foram na sua maioria, recolhidas ao perscurtar as paredes da minha aldeia.

16.7.07

a lógica da batata


Descoberta no Perú pelos espanhóis, rapidamente foi trazida para a Europa no século XVI e a partir daqui disseminada pelo mundo inteiro.

Segundo Leite de Vasconcelos, a primeira vez que a palavra batata apareceu num dicionário da língua portuguesa foi em 1647, no "Thesouro da língua portuguesa", de Bento Pereira e segundo se consta terá sido em Trás-os-Montes que se semearam pela primeira vez batatas em Portugal.

E foi precisamente por terras transmontanas que, no sábado, foi dia de arrancar batatas (prática habitual para quem as semeia). Mesmo com o auxílio de alguma maquinaria útil, não se retira prazer nenhum ao gozo de quem tem vontade de estar ali. O combinado tinha sido que comeriamos na horta, aproveitando sempre algumas batatas que se racham e que cozidas com bacalhau num pote ao lume, serviriam de almoço.

Para evitar o abrasador sol da Terra Quente, havia que madrugar para terminar cedo. Acabada a faina, esperava-nos na sombra de uma ameixoeira, a merecida merenda que iria ser nobremente recompensada por um fio de louro azeite também distribuido por saladas de tomate e pimento, e salada de beldroegas. E claro está, tudo muito bem regado pela pinga rubra do nosso magnífico vinho. Por fim, de sobremesa, restou-nos esticar os braços e colhermos algumas suculentas ameixas.Tudo da horta! Absolutamente bom.
À noitinha, pelas festas de Vila Flor, num bom concerto dos Quinta do Bill, passou-se ali um bom bocado e gostámos da música. Sentia-me tão leve que nem queria acreditar!
Resplandecente início de férias!
monge

11.7.07

MOLESKINE




Vamos, a partir de hoje, iniciar uma rúbrica intitulada moleskine que, mais não pretende ser do que um registo de impressões de viagens realizadas com vontade e quase todas elas, de uma forma ou de outra, mais ou menos planeadas.



Chamamos-lhe assim porque, este interessante e pequeno caderno de capas negras, desde Van Gogh, Picasso, Matisse, André Breton, a Ernest Hemingway, todos eles o usaram para rabiscar muitos esboços e anotar numerosos apontamentos que se viriam a transformar em quadros famosos e livros muito apreciados. O escritor de viagens Bruce Chatwin , abastecia-se sempre de vários moleskine's antes de partir em viagem e tinha por ritual, numerar as páginas, escrever o nome e pelo menos dois endereços com a promessa de recompensa no caso de os perder. É sua a famosa frase “Perder o passaporte é a última das minhas preocupações, perder o moleskine é uma catástrofe.”


Mais recentemente Sepúlveda, também ele inseparável do seu moleskine, fala assim: "[O moleskine] é um pequeno caderno com capa negra que levo comigo para todo o lado, no qual escrevo os meus anseios, os meus pensamentos, dúvidas e questões do dia-a-dia. E também pequenos artigos, capítulos de romances, receitas, declarações de intenção e compromissos de que geralmente me esqueço. Numa breve cerimónia de adeus antes de iniciar um novo, releio o que escrevi e percebo que não perdi a capacidade de assombro. Relê-lo é como que um rebobinar da minha vida e vê-la, fugazmente, fotograma a fotograma.”


E é pois este o espírito e a filosofia moleskine.


Curiosamente, mesmo antes de ter um moleskine, já tinha por hábito fazer este tipo de registos num pequeno caderno de argolas tipo A5, agora que me foi-me oferecido um verdadeiro, vou tentado actualizar as minhas já realizadas viagens e as quais gostaria de, aos poucos, ir partilhando convosco.
Nota: Para quem estiver interessado em adquirir este caderno, poderá ir a http://www.moleskine.pt/ e consultar os Pontos de Venda. Boas viagens!
monge

6.7.07

COMO UM ROMANCE

Acabado de sair da mesinha de cabeceira, este título merece aqui destaque e desde já alego o 10º Direito, deixando-vos a vontade de o sublinhar como eu. E passo a citar alguns desses momentos:
"O verbo ler não suporta o imperativo.É evidente que se pode sempre tentar"
"O livro é sagrado, como é possível que haja quem não goste de ler?"
"A leitura é um acto de criação permanente."
"Nós somos lúcidos. Melhor, temos a paixão da lucidez."
" ... a vida manifesta-se pela erosão do nosso prazer."
"O livro está lido mas nós ainda lá estamos."
"... o prazer de ler estava ali à mão de semear, sequestrado nos sótãos adolescentes por um medo secreto: o medo (muito antigo) de não compreender."
"Poucos objectos suscitam, como o livro, um sentimento de propriedade absoluta."
"... essa satisfação imediata e exclusiva das nossas sensações ... "
"Por isso as razões que temos para ler são tão estranhas como as que temos para viver. E ninguém nos pede contas dessa intimidade."

Lógico que não poderia sublinhar tudo, e aliás, esse deveria ser o 11º Direito.

Os Direitos Inalienáveis do Leitor

1- O direito de não ler
2- O direito de saltar páginas
3- O direito de não acabar um livro
4- O direito de reler
5- O direito de ler não importa o quê
6- O direito de amar os “Heróis” dos romances
7- O direito de ler não importa onde
8- O direito de saltar de livro em livro
9- O direito de ler em voz alta
10- O direito de não falar do que se leu
PENNAC, Daniel, Como um Romance, Edições Asa, 13 ª Ed. , 2001.
monge

2.6.07

Preâmbulo

A vida é um lugar estranho! Pois é.
Há palavras que encerram em si tanto significado que, quando lidas ou ouvidas, provocam tal efeito e desencadeiam tamanhas atitudes, não nos deixando indeferentes pela sua verdadeira intenção. Numa passagem do livro Até ao Fim (Vírgilio Ferreira) é dito por um dos personagens o seguinte: " a felicidade não se mede pela quantidade do que nos acontece de agradável mas pela quantidade de nós que responde ao que acontece". Absolutamente.
Não é este o sentido da vida? Não é esta a melhor forma de encararmos os prementes desafios quotidianos? Não será essa a capacidade de viver tranquila e intensamente? Talvez.
Cansamo-nos de diariamente nos interrogar, qual será o sentido disto tudo. Fartamo-nos de ouvir que a vida é isto, a vida é aquilo, a vida é tudo, a vida é nada, é um sonho, é uma farsa, é um martírio e uma lenta crucificação. Poderá ser tudo isso, mas de uma coisa fiquemos cientes: a vida acontece. Se bem que por vezes nos custe distinguir o sonho da realidade, não podemos abdicar da nossa condição vital de viver.
É redundante! Tudo bem. Mas não nos podemos limitar a uma simples existência sem sentir. Deixarmos que a vida nos absorva e nos sussure ao de leve todos os caprichos da sua vontade. Nem pensar! Temos que ser nós e temos que sê-lo logo, nem que para isso tenhamos que enfrentar perigos já experimentados. Temos que ser afoitos o suficiente para preferirmos aventurarmo-nos nas águas turbulentas do rio, em vez de permanecermos eternamente parados na margem.
Mas há dias em que somos docemente levados pela fantasia do sonho e da ilusão. Sejamo-lo também. Se somos capazes de sonhar, poderemos ser também capazes de tornar os nossos sonhos realidade. A vida é a única maneira de concretizar as nossas ilusões. Se temos por real o que existe, a ilusão existe porque é real. Além disso, todos nós sabemos que o sonho comanda a vida.
Pronto, chega de divagar. A génese deste blog surge pela vontade de partilhar todos os momentos que realmente nos tenham deixado qualquer marca na memória e a qual gostassemos de mostrar aos outros. E a memória tem raízes profundas!
Sem obedecer a qualquer temática, este espaço será aberto a todo o tipo de manifestação que se entenda livre e capaz de provocar nos outros sensações e emoções, a qual poderá surgir sob qualquer forma: imagem, fotografia, narrativa, poesia ou música. Isto é, tudo o que nos venha à cabeça.
monge

Fundação

Nem a propósito!

Ao decidirmo-nos por um post inaugural para o blog, vei-nos à ideia fundá-lo com uma breve referência a D. Afonso Henriques (filho de Henrique) responsável pela fundação do nosso país.
Ainda sou do tempo em que, nos manuais escolares, a estátua do nosso primeiro monarca, da autoria de Soares dos Reis, surgia como uma imponente figura, de semblante austero com o elmo brônzeo e a sua enorme espada, despertando em nós emoções valentes e remetendo-nos para façanhas lendárias. Dizia-se entre a garotada, que a espada desse valoroso rei era tão pesada que seriam necessários cinco homens para conseguir erguê-la. E foi essa ideia que prevaleceu durante longo tempo, levando-nos a imaginar as inúmeras batalhas contra a moirama despedaçada por essa enorme espada.
No passado 18 de Maio, no destacável Ypsilon do Público, saiu uma entrevista com o antigo monge beneditino e historiador José Mattoso, responsável pela biografia de Afonso Henriques(1) que, apesar de matéria escassa e de inúmeros episódios lendários sobre este assunto, conseguiu elaborar um trabalho com alguma consistência histórica.
Segundo o historiador, algumas narrativas da época dão a ideia que o o nosso primeiro rei seria um homem colérico, violento mas astuto, persistente e ambicioso, além de um execelente militar, apesar de provavelmente analfabeto e que se manteve solteiro até aos 37 anos. Ao que parece, não seria aquele gigante com dez palmos (uns dois metros) conforme reza a crónica de Santa Cruz, mas sim meão de altura. Além disso, também seria coxo, em virtude do infortúnio de Badajoz, em que numa queda do cavalo, teria partido uma perna. No entanto, morreu aos 76 anos, relativamente velho para a época e no seu epitáfio é comparado a Alexandre, O grande.
Uma equipa antropológica dos nossos dias quer, ardentemente, abrir o seu túmulo para conseguir uma imagem do rosto e saber das suas maleitas. Pois que estejam lá quietinhos com a roupa, porque sejam quais forem os resultados, ninguém me consegue tirar da ideia a sua majestosa figura, tenha sido ele baixote, coxo e analfabeto. Poderia tê-lo sido, mas pelo menos demonstrou tê-los no sítio (o que vai rareando nos dias de hoje) e a ele devemos o projecto de Portugal como reino independente, sem prestar vassalagem a nenhum poder superior.
Ah, valente!




D. AFONSO (HENRIQUES) I - O CONQUISTADOR

n. 1109 m. 1185

Reinado: 1128-1185


(1) MATTOSO, José, D. Afonso Henriques, Círculo de Leitores, Colecção Reis de Portugal.
monge