22.7.07

As Pequenas Memórias

Ao percorrer todas as minhas leituras “saramaguianas”: Levantado do Chão; Memorial do Convento; A Jangada de Pedra; O Evangelho Segundo Jesus Cristo; Ensaio sobre a Cegueira e tendo em lista de espera Todos os Nomes e A Caverna, concluí que a leitura d’As Pequenas Memórias deu-me um especial prazer.
Além de sempre ter tido alguma curiosidade por biografias, estas pequenas memórias do nosso Nobel, curiosamente, fizeram-me recordar alguns longínquos e ternurentos momentos da minha infância. Embora oriundos de realidades geográficas bastante diferentes, alturas houve em que consegui identificar uma ou outra vivência campestre, rodeada de todas as emoções envolventes que isso implica.
De leitura fácil, ficamos até agradavelmente surpreendidos com alguma humildade do autor, sem receios em assumir a sua rústica meninice: "Queria que os leitores soubessem de onde saiu o homem que sou". (José Saramago)

Todos nós ajeitamos nos nossos alforges, lembranças que nos permitem reconstruir momentos passados, mas conseguiremos nós transmiti-los de uma maneira tão breve e clara conforme tenham acontecido? Não nos deixaremos tomar por uma certa afectividade e carinho para que o tempo, esse eterno carrasco, não nos volte a separar o corpo da alma? Não sei.
Porventura, julgo que nos agrada ter memórias porque sabemos que temos em nós o sentimento de destino, o qual, às vezes, nos parece ser como subir um rio sem remos. E talvez seja ai que, nos assaltam recordações de ecos vazios, lógicas sem sentido, sonhos abafados e segredos de coisas obscuras.
Tudo isto também trago dentro de mim, não albergo só memórias de instantes jovens e bons.
monge
Saramago, José: As Pequenas Memórias, Círculo de Leitores, 2007.

4 comentários:

avelaneiraflorida disse...

De Saramago li, e gostei muito, a História do Cerco de Lisboa e o Memorial...
Li, igualmente, o Viagem em Portugal...que me deixou impressões muito cativantes...

Agora, perante esta sugestão, acho que vou acrescentar a minha "pilha de férias"!!!!
"Brigados", monge.

Li Malheiro disse...

Olá.
Ao ler as PEQUENAS MEMÓRIAS de Saramago vi-me em muitos quadros que ele descreve, parece que ele esteve a ver cenas da minha meninice. Afinal todos temos momentos que quando escritos são uma luz da memória e um farol de vida.
Eu sou fã de Saramago.
Parabéns por chamares aqui tal vulto. Embora deva dizer que tu, Monge, também tens visão para a escrita, é agradável ver assim descrito a apresentação deste tema pela tua pena.
Na semana passada fiquei extasiado de ver a forma como se constrói a escrita de uma criança (XXIX Congresso do Movimento da Escola Moderna)na escola. E agora vejo aqui outro mago da escrita, continuo satisfeito.
Um abraço com amizade.
Li Malheiro

monge e eremita disse...

olá Li

ao que parece as memórias são um pouco comuns ... também te sentiste a partilhar alguns desses momentos, não foi? que estranho!
a vida, apesar de estranha, pode ser tão simples, não é? continuemos com toda esta sensibilidade à flor da mente!

abração monge

monge e eremita disse...

Ol� monge!
Parab�ns pela escolha do titulo. Pequenas memorias do Saramago. Confesso que n�o li. Conhe�o apenas "Todos os nomes" (e mal!...) e "o ano da morte de Ricardo Reis", que nunca acabei. Tenho tamb�m p'r�qui o "memorial do convento" e "ensaio sobre a lucidez" � espera que me decida. Mas ele h� tanta coisa para ler, que acabamos por revindicar, como pretexto, a liberdade de o n�o fazer. Quanto a memorias, s�o elas que legitimam o presente! Somos mem�ria e "Recordar � viver" Mesmo se para recordar, como dizia Nietzsche, � preciso esquecer...

Lembran�as,
eremita