20.9.07

Viagem ... I

A andorinha acabara os seus preparativos de viagem.
Nervosa, ao pé dos seus filhos, aguardava as companheiras, porque a viagem era colectiva, e batia as asas como a querer certificar-se do seu bom funcionamento. A uma curta distância, um cisne permanecia silencioso, olhando para as águas que o sustinham. Nunca trocara palavra com ele, porque o cisne jamais levantara a cabeça para a fixar e também não podia perder o seu tempo a conversar com alguém que não lhe ligasse importância. Mas desta vez, enquanto esperava as companheiras, resolveu passar o tempo, dizer-lhe fosse o que fosse. E um pouco à toa principiou:
- Quer vir passear connosco?
- Não gosto de viajar.
- Por que razão meu amigo? Viajar encanta, instrui! Voar pelo azul! Vermos raças diferentes, países, outras paisagens! Venha daí, há-de gostar!
- Não insista, minha amiga.
- Quer dizer que não gosta de voar?
- Tenho bom senso, felizmente, das minhas necessidades.
E acrescentou sem se mexer:
- Quem viaja pouco adianta. Tudo está dentro de nós.



António Botto, Contos


Foi este delicioso texto que serviu de base à ficha de avaliação diagnóstica para os alunos de 5º ano na minha escola.
monge

2 comentários:

avelaneiraflorida disse...

Amigo monge,
Que bom!!!!!
Os teus "besourinhos" começaram tão bem com BOTTO!!!!!

LIndo!!!!!
E deste-me mais uma ideia!!!!
"Brigados"
BJKs

monge e eremita disse...

Olá avelaneiraflorida

Temos, desde logo, que incutir o gosto pela viagem, esteja ela dentro de nós ou algures por ai. Espicaçar as sensibilidades e o bom senso de cada um.

bj

monge