23.8.07

O Carteiro ...do nosso contentamento

Numa tentativa de exorcizar a raiva contida para com o tal carteiro, vi-me na obrigação de (re)rever o Carteiro de Pablo Neruda (Il Postino), este sim, o verdadeiro carteiro metafórico. Eleito por mim como um dos melhores filmes de sempre, guardo-o como tal e não me canso de o ver.
Filme de uma beleza plástica rara, narra o percurso do carteiro Mario Ruoppolo que vê a sua vida meio perdida despertar com a chegada de Pablo Neruda, cujo exílio político o obriga a refugiar-se na ilha de Cala di Sotto. Quando se torna amigo do famoso poeta chileno, Mario não perde ocasião para tentar perceber as suas palavras, as quais lhe vão permitir elaborar metáforas (metafori), compreender ideias poéticas e permitir-lhe a autonomia de reenvindicar. E Mario assume esta atitude em todos os sentidos, dizendo mesmo que os poemas de Neruda também eram seus porque lhe tinham despertado emoções:

-" A poesia não é de quem a escreve mas sim de quem precisa dela".


Desta forma Mario consegue entender que o verdadeiro significado da poesia está no despertar de emoções e na inquietação que nos provoca, sentimentos que só a quem a lê dizem alguma coisa.
"O poeta é uma alma grande e generosa ...que fala de maneira diferente". Mario tenta dizer a Neruda que as palavras poeticas são tão simples que a ele próprio já lhe aconteceram só que "...nunca seria capaz de as dizer". Neruda procura consolar o carteiro assegurando-lhe que a poesia não se explica mas sente-se, porque a explicação da poesia significa a morte do poema e "...quando explicada a poesia torna-se banal".

Evidentemente que o filme não é só isto, é também recheado de outros inúmeros atributos: o argumento, a fotografia, banda sonora, actores secundários, etc. Absolutamente delicioso!
No entanto, o que mais me fascina é a magnífica interpretação de Massimo Troisi (Mario Ruoppolo) que consegue emprestar ao personagem uma ingenuidade desconcertante e uma melancolia tal, deixando-me confuso na distanção entre o real e o imaginário.
Acrescentado algumas informações paratextuais sobre o filme, o actor Massimo Troisi morreu logo após as filmagens não desfrutando do enorme sucesso alcançado com o seu desempenho, o qual lhe valeu um Óscar a título póstumo. Por isso, algumas das filmagens do seu personagem são muitas vezes realizadas estando ele sentado ou parado, isto porque a sua débil condição física de outra forma não permitia. Paz à sua alma.


Título Original: "Il Postino" (1994); Realização: Michael Radford; Actores: Massimo Troisi, Philippe Noiret, Maria Grazia Cucinotta.

monge

6 comentários:

avelaneiraflorida disse...

UM FILME FABULOSO!!!!!
Para além de gostar imenso de Pablo...o Filme vive aqui do "carteiro"....tão intenso tão humanamente ingénuo!!!!
InESQUECÌVEL!!!!!

Bem tenho procurado o DVD...mas ainda não o consegui!!! Mas não perco a esperança!!!!
UM BOM DIA, Amigo monge!!!!
BJKS

monge e eremita disse...

Olá avelaneiraflorida

completaste de uma forma soberba a minha ideia sobre o filme "...tão intenso, tão humanamente ingénuo!". Bravo. Também eu, ando constantemente à cata do DVD mas ainda não consegui apanhá-lo. Entretanto, vou continuando a desgatar a fita de um velhinho VHS que, desconfio, já o devo ter consumido com os olhos.
Um bom dia também para ti, amiga

bj
monge

Paulo Sempre disse...

"A poesia não é de quem a escreve mas sim de quem precisa dela". Grande verdade!!!
Os pemas trazem geralmente dentro deles as pessoas.... Os leitores que houver famintos de pessoas precisa realmente dos poemas..

Abraço

Paulo

monge e eremita disse...

Pois é Paulo, quando as palavras de um poema nos prendem, sentimo-las como sendo nossas e acabamos por estabelecer um laço qualquer com o seu autor. Dessa cumplicidade nasce uma infinita vontade de, juntos, viajar e encontrar uma paz de espirito num canto qualquer.

abraço para ti

monge

monge e eremita disse...

Olá a todos!
Apraz-me ver que "não sou o único a olhar o céu", para parafrasear os nossos velhinhos xutos e pontapés! De facto a poesia é de quem a sente, ou de quem a come, visto que, como dizia a Natália Correia, "a poesia é para comer"!
Bom apetite, sempre!...

eremita

Rhiannon disse...

Dos filmes que me encantou! De tal modo que o vi inúmeras vezes, em sala de cinema! A última em Lisboa, num sucesso de permanência em cartaz.
Belo, belo, belo!!

A simplicidade encantatória que encontro, recorda-me um outro filme, belo também : A educação de Rita.