Presente!

Já me penitenciei demasiado por tamanha ausência, mas a verdade, e curiosamente, tenho estado sempre presente.
Este regresso, sem dúvida, que se deve ao dia de ontem, mas não só. Senão vejamos.
Uma colega, que, apesar das suas formas cheiinhas, sempre conseguiu ser elegante e graciosa. No entanto, de há um ano para cá, emagreceu cerca de oito quilos, o que a tornou exponencialmente mais elegante, contudo sempre a mesma mulher. Como partilhavamos bons momentos de conversas, sobre leituras e outros temas interessantes, obviamente que a palavra dieta veio ao de cima. Apesar de não ser gordo, sou um bom garfo, e por tal, uma vez que a minha coluna vertebral é condómina de uma cifose, uma escoliose, e uma hérnia bí ... qualquer coisa, o ortopedista tem-me vindo a alertar: "-Evite engordar um quilo que seja".
Com estas palavras na cabeça, toca de perguntar à Isabel qual foi a dieta seguida para conseguir abater o tal peso. Apressadamente, e de uma forma natural, logo me disse:" -Eu não faço dieta. Eu não deixei de comer nada daquilo que comia, simplesmente passei a estar mais presente à mesa". E com essa me fiquei. Também eu pensava que estava sempre presente à mesa. E estava, mas era para consolar o palato e afagar o bandulho com duas palmadinhas.
Mas tenho vindo a pensar muito nisso: em estar presente. Sempre. Com todos. Em todo lado. Evitar esquecer-me, distrair-me ou desviar-me de onde preciso e quero estar.
E ontem, por ser o dia do Pai, que das mais variadas formas é festejada e relembrada, exigia-se a minha presença (era a minha vez) na escola do Manel para contar uma história à turma. A história que escolhi "A ovelhinha que veio para o jantar", versava o tema da amizade, era a versão romântica de uma velha que consegue eternecer o esfomeado coração do lobo mau, deitando-se-lhe no colo, com carinhos e beijinhos.
Sentado à índio, à altura dos meus ouvintes, acabada a história, vi-me de repente rodeado de alguma petizada que tentava carinhosamente encarrapitar-se-me nas pernas e pedindo, como só eles sabem pedir: "-Ó papá do Manel, conta outra vez!" Irrecusável!
Estava ainda combinado, que nesse dia seria o pai ir buscar os filhos à escola. Lá fui. Então a surpresa era: o pai sentar-se junto do filho, e ambos disfrutarem de um lanchinho composto por bolo e chá. Nunca tinha visto o Manel beber chá e nunca um chá me soube tão bem.
À noite, ofereci-me uma ida ao teatro, ver a peça "Reféns", pelo Teatro BRUTO. Ao chegar a casa, e porque por baixo de minha casa há uma café aberto até às 2 da manhã, vejo o carro de um amigo e resolvi ir beber um copo com ele. É um amigo recente, um sociólogo cultíssimo e solitário, a quem a vida já amadureceu. Se convivo com alguém culto, tento falar de cultura. E lá falámos de filmes, de livros, de viagens... Num qualquer espaço morto, saiu-me: "- Lá se passou mais um dia do Pai". Ao que o meu amigo retorquiu."- Não sinto necessidade de falar nisso". E também não senti curiosidade que o não quisesse ter feito. É que eu também não tinha necessidade de falar disso. É-me difícil falar de algo, do qual não tenho ideia. De quem não soube estar presente.
monge