Porque os outros se mascaram ... mas eu não!
Aquando da comemoração da Semana da Língua Portuguesa, foram expostos cartazes com imagens e poemas de alguns dos nossos maiores poetas. Houve um que me tocou especialmente. Depois de o ter lido, partilhado e comentado com outros colegas, logo foi julgado mais que oportuno para retratar o que hoje se passa um pouco por todas as escolas. Refiro-me em particular ao injusto, nefasto e intolerável sistema de avaliação que se quer impor a toda a força à classe docente. Muitos houve que participaram em acções de protesto, assinaram abaixo-assinados, participaram em manifestações mas, num puro golpe de oportunismo, rapidamente se prontificaram a ser avaliados. Eu não! Recusei-me a entregar os objectivos e participei activamente em todos os protestos, deslocando-me quatro vezes a Lisboa para me expressar.
O poema foi fotocopiado e colocado sob o vidro de todas as mesas da sala dos professores.

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen